Há uma série de produtos comercializados no mercado interno que tem o preço fixado com base nas variações do dólar. E um destes produtos é muito conhecido dos brasileiros, o pão francês. Embora a relação pareça estranha para alguns, o motivo é até compreensível porque o Brasil importa a maior parte do trigo que consome.
Nos últimos anos, o preço do pão francês foi reajustado várias vezes por conta da variação da moeda norte-americana. Mas tem um detalhe que o consumidor não entende muito bem: se o preço do pão aumenta quando o dólar sobe porque o preço não baixa quando a moeda é desvalorizado?
Só para se ter uma idéia, em outubro de 2002, quando o dólar atingiu a cotação máxima no Brasil - quase R$ 4,00, a unidade do pão francês custava R$ 0,25 em algumas padarias. Agora, com o dólar abaixo de R$ 2,00, o valor unitário equivale a R$ 0,27 nas mesmas padarias.
A controladora de vôo Gabriela Manhães estava em um supermercado comprando 100 unidades de pães de sal ''mini'' para um churrasco de confraternização entre colegas de trabalho. Ela diz que consome o pão francês todo dia no café da manhã e prefere comprar o produto na hora. ''O pão quentinho é bem melhor, com certeza''.
Gabriela ficou surpresa ao saber que o preço do pão francês ''decola'' com o dólar, mas permanece nas alturas mesmo quando a moeda norte-americana ''aterrisa''. ''Estou sabendo disto agora, mas já que está vinculado, acho que deveria baixar também''. A controladora de vôo ressalva que não entende ''muito bem'' deste assunto, mas gostaria de manifestar a sua opinião como consumidora. ''Acho que a ganância das pessoas não deixa que o preço abaixe''.
A auxiliar administrativa Viviane Schiavo consome o pão francês diariamente e compra o produto no final do dia em um supermercado porque não tem tempo de ir à padaria pela manhã. Ela também não sabia que o preço dos derivados de trigo é ''vinculado'' ao dólar, mas sabe que não compra a mesma quantidade de pão com o mesmo valor. ''Há alguns anos, a gente comprava sete pãezinhos com um real, e hoje a gente leva três, no máximo quatro''. Para Viviane, o raciocínio é simples: ''Se o dólar baixou, o preço do pão também deveria ter baixado, com certeza''.

Pão subiu 38% nos últimos 5 anos
  Para o empresário Antonio Carlos Hodas, da Panificadora Millane, a vinculação do pão francês ao dólar não pode ser tão simplista. ‘‘Não há fundamento dizer que o dólar baixou e o preço do pão subiu. Não tem nada a ver’’, afirma.
  Ele concorda, entretanto, que o trigo é importado, principalmente da Argentina, e pago em dólar. O que acontece, segundo o empresário, é que houve um reajuste em dólar da matéria prima. Hodas fez um levantamento junto à importadora onde compra a farinha e constatou que a tonelada de trigo estava a US$ 160,00 entre 2000 e 2002 e está agora em US$ 260,00.
  Mas não é só isso. Segundo ele, houve reajuste de outros insumos neste período, entre eles a água, a energia elétrica, o açúcar, o fermento, os impostos, o aluguel do imóvel e a folha de pagamento. Todos na faixa de 60 a 90%.
  Quanto ao fato de alguns estabelecimentos venderem o pão francês pela metade do preço, o empresário faz um alerta. ‘‘O consumidor deve estar bem atento. Como são produzidos esses pães? No nosso caso, nós participamos do Programa Alimento Seguro, regulamentado pela Anvisa, e com várias exigências que demandam um custo muito alto’’. Entre as normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ele destaca a limpeza impecável de todos os ambientes, todos os funcionários trabalhando com a máxima higiene e o acompanhamento dos trabalhos por uma nutricionista. ‘‘Milagre está difícil. Se você quer uma coisa com qualidade, isto tem um custo. É aí que está a diferença’’.
  O empresário faz questão de destacar que o reajuste do preço do pão nos últimos cinco anos foi de 38% contra cerca de 80% de aumento de custo dos outros insumos. Hodas afirma que, mesmo assim, não repassou o preço ao consumidor, sendo a diferença ‘‘compensada’’ na variedade de 200 produtos da panificadora.
  Ele discorda também da afirmação de alguns consumidores, que chamam os donos de padaria de ganaciosos.‘‘O panificador não é ganancioso. Ele trabalha com uma empresa que visa lucro e o lucro é necessário para a nossa sobrevivência e ainda é reaplicado na própria empresa’’. O empresário cita que algumas máquinas usadas no processo de panificação são relativamente caras e precisam ser substituídas ‘‘no máximo de três em três anos’’.
  Mas voltando ao preço do trigo importado: e se a Argentina não reajustar o preço do produto em dólar? ‘‘Se ela vendesse o trigo ao mesmo valor daquela época, hoje estaríamos comprando a farinha de trigo bem mais barato e o pão estaria a 15 ou 18 centavos’’. (E.A.)

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