As pessoas só compram um eletrodoméstico pensando nos benefícios que o produto proporciona. Mas ultimamente, milhares de consumidores estão trocando o esperado bem-estar por uma terrível dor-de-cabeça porque a vida útil de tais produtos está cada vez menor. Resultado: as oficinas que prestam serviços de assistência técnica para as lojas estão literalmente abarrotadas por aparelhos que deixaram de funcionar com pouco tempo de uso. Tentar resolver estes problemas, exige muita paciência de quem compra.
A artesã Cristiane Gusmão nunca imaginou que teria tanto trabalho com eletrodomésticos após equipar a casa. Nos últimos meses, ela comprou um liquidificador, uma batedeira, um microprocessador, um ferro elétrico, um DVD, uma churrasqueira elétrica, um forno elétrico e um fogão. Parte dos bens de consumo funcionou normalmente, mas outros apresentaram problemas. ''O microprocessador veio com uma função quebrada e fui na loja onde comprei, eles me atenderam muito bem e trocaram na hora'', afirma.
Mas o liquidificador... ''Veio com uma hélice um pouco torta. Fui na loja e eles não puderam trocar, e pediram para ligar no 0800. Liguei, nada foi resolvido e estou com o produto até hoje''. Cristiane diz que o 0800 e a loja criaram uma espécie de jogo de empurra-empurra. ''A hora que a gente vai comprar, é tudo mil maravilhas, mas depois...'', lamenta.
Ela também reclama da loja onde comprou o fogão e o forno elétrico de embutir e não tem como fazer a instalação. ''Liguei várias vezes e ninguém me informa como instalar. Não sei nem por onde começo porque não é uma coisa comum''. A artesã afirma que não tem mais a quem recorrer sobre o assunto. ''Está meio complicado comprar um eletrodoméstico hoje'', suspira. Com a churrasqueira elétrica, o problema foi diferente. ''Ela veio sem manual. Como posso usar? Tenho que deixar o produto parado''.
Além dos problemas com eletrodomésticos novos, a artesã fala da curta durabilidade de outros dois produtos. ''O primeiro é um liquidificador que não tem 10 meses e já trincou inteirinho e o segundo é um DVD que, de repente, parou de funcionar''. Segundo ela, o DVD estava com pouco mais de um ano de uso e, portanto, fora da garantia. ''Levei para a assistência técnica e eles disseram que com o tempo de uso o equipamento não aguenta mesmo. E como já tinha vencido, eles nem me atenderam''.
Apesar do funcionamento precário destes eletrodomésticos, a maior reclamação da artesã é com o atendimento. ''Eu acho que as empresas precisavam qualificar mais os funcionários. Às vezes, a gente liga e eles não sabem informar nada e fica aquela musiquinha um tempão. Não adianta colocar uma pessoa que não sabe atender. Em segundo lugar, acho que a indústria deveria melhorar a qualidade de seus produtos''.

Conceito de descartável chegou aos aparelhos
  O administrador de empresas Herondino Mariano Junior passou por uma experiência curiosa com dois eletrodomésticos: uma geladeira com prazo de garantia vencido e um DVD ainda no prazo de garantia. ‘‘O DVD estava com apenas quatro meses de uso. A gente colocava o filme e ele ficava pulando ou parava na cena’’, explica. E a geladeira, depois de um ano e três meses, parou de funcionar porque o ‘‘chip’’ que controla todo mecanismo queimou.
  Mariano diz que os dois problemas foram resolvidos, porém, de formas diferentes. ‘‘Um do meu agrado e outro nem tanto’’. Nos dois casos, ele fez contatos por e-mail com os fabricantes. E mesmo fora da garantia, o caso da geladeira foi resolvido rapidamente. ‘‘Eu disse que eles não teriam nenhuma obrigação de me atender, mas acabaram atendendo’’. Segundo Mariano, a nova placa custaria R$ 200,00 e a mão-de-obra mais R$ 200,00. No acordo, ele assumiu uma parte e a indústria a outra.
  Quanto ao DVD, o trabalho foi bem maior. Ele passou um e-mail para a empresa, depois outro, ligou para o 0800 sem obter nenhuma resposta e, finalmente, passou um e-mail para a diretoria da empresa e mesmo assim nada foi resolvido. Sem outra alternativa, recorreu ao Procon e depois de 60 dias em negociação, pediu de volta o valor da mercadoria. ‘‘Eles devolveram o dinheiro, mas não fizeram a correção como manda a lei. Como a diferença era pequena, vi que não valia entrar com uma ação contra a empresa’’.
  Mariano acredita que uma das maiores dificuldades em resolver os problemas com eletrodomésticos está na terceirização da assistência técnica. ‘‘Eles devem colocar uma política de atendimento que dificulta a vida do consumidor. Na minha opinião, deveria haver um meio onde a pessoa resolvesse o problema direto com a empresa e não com um terceirizado’’. Ele acha que os consumidores devem sempre procurar seus direitos, inclusive o Procon, quando um produto apresentar algum tipo de problema. ‘‘Só assim eles começam a se movimentar’’.
  O administrador de empresas ainda lamenta que o conceito de descartável tenha chegado aos eletrodomésticos. ‘‘O meu pai fala de uma geladeira que durava 20 anos, de uma televisão que durava 15. E hoje, a vida útil destes bens é cada vez mais curta’’. (E.A.)


‘Durabilidade não é preocupação da indústria’  
O coordenador do Núcleo Municipal de Proteção e Defesa do Consumidor de Londrina, Flávio Henrique Caetano de Paula, diz que o número de pessoas que procuram o órgão para resolver problemas com eletrodomésticos ‘‘está aumentando de forma considerável’’. Ele atribui o ‘fenômeno’ à ânsia da indústria em aumentar o volume de vendas. Assim, segundo ele, se prioriza a estética em detrimento da durabilidade.
  Caetano de Paula informa que houve um caso extremo de um consumidor que recorreu ao Procon apenas dois dias depois de comprar um eletrodoméstico. ‘‘Durabilidade, realmente, não é preocupação deles’’, afirma. O coordenador do Procon lamenta também que o 0800 não esteja cumprindo o seu verdadeiro objetivo. ‘‘Até parece que foram criados apenas por formalidade, deixando os consumidores ainda mais nervosos’’.
  Ele sugere que em caso de problemas com eletrodoméstico, a pessoa entre em contato primeiro com a loja que vendeu o produto. E caso a mercadoria fique mais de 30 dias na assistência técnica, o consumidor pode pedir a troca do produto ou o dinheiro de volta. Agora, se for algo considerado ‘‘essencial’’, a troca deve ser imediata. (E.A.)

e-Flation
  Os preços dos produtos vendidos na internet tiveram queda de 1,32% na primeira semana de maio, de acordo com o índice
e-Flation divulgado ontem pelo Programa de Administração do Varejo (Provar) da Fundação Instituto de Administração (FIA), em parceria com a Canal Varejo. O resultado, segundo o Provar, acompanha a tendência negativa do mês de abril, que registrou deflação de 0,99%.

Categorias
  Por categorias, a de ‘‘Brinquedos’’ apresentou a maior queda, com 4,15%. Em seguida aparece ‘‘Informática’’ com deflação de 3,46%; ‘‘Viagem e Turismo’’ está na terceira colocação com redução de 3,31% e ‘‘Eletroeletrônicos’’ com baixa de 1,16% na primeira semana de maio. As categorias ‘‘Telefonia’’ e ‘‘Linha Branca’’ sofreram queda de 1,04% e 1,01%, respectivamente. Na cesta composta apenas por ‘‘Automóveis’’, o Provar apontou deflação de 0,46%. Os produtos avaliados pelo índice são os mais anunciados entre os sites mais procurados, o que compõem os ‘‘campeões de vendas’’.

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