O movimento no comércio, de um modo geral, é maior no início do mês. Nos primeiros dez dias, quando os trabalhadores recebem o salário, os supermercados - por exemplo, ficam lotados. Segundo o presidente da Associação Paranaense de Supermercados - Regional Norte, empresário Ademar Vedoato, o movimento na primeira semana do mês aumenta em todo o comércio, inclusive nos bares.
  Para ele, haveria necessidade de tempo para fazer um estudo detalhado sobre o volume de compras ao longo do mês, mas estima que o movimento seja 10% maior na primeira semana em comparação com as outras semanas.
  A situação dos assalariados também pode ser dividida de três maneiras: quem recebe de apenas uma fonte, aqueles que possuem o benefício do ticket e os trabalhadores que desenvolvem uma segunda atividade para reforçar o orçamento.
  A professora Cristiane Amorin faz duas compras por mês, a primeira assim que recebe o salário e, a segunda, 15 dias depois. Para economizar, ela prefere comprar o que está em promoção. ‘‘É uma forma de atrair o cliente. Vou passando de mercado em mercado porque o mesmo item dá muita diferença de um lugar para outro. Por exemplo, o leite, o café e o sabão em pó’’. Cristiane paga a segunda compra do mês com cartão e só leva o essencial. ‘‘É só o básico mesmo: carnes, frutas, verduras, essas coisas. O carrinho sempre fica mais vazio’’.
  No final do mês, ela reconhece que ‘‘o apuro é bem maior porque, além de tudo, chega a fatura do cartão’’. Ela concorda que, nesta época, ‘‘tem professor matando cachorro a grito’’. Cristiane lamenta que a profissão de educador seja tão desvalorizada e atribui uma nota para o salário da categoria: ‘‘Dois, e olha lá, para não deixar sem nota’’. Ela afirma também que, além do baixo salário, o professor ainda enfrenta uma série de outros problemas. ‘‘E não é só a violência, é a falta de material, falta de estrutura...’’.
  O porteiro Neivaldo Justino não tem tantos problemas com compras durante o mês, por dois motivos: recebe o salário quinzenalmente e seu sistema de trabalho permite desenvolvver uma segunda atividade nas horas de folga. Ele é pintor autônomo. Justino já tem um esquema de compras pré-estabelecido: assim que recebe o salário paga o cartão de crédito e logo em seguida faz a compra ‘‘principal’’. Ele admite que ‘‘a situação seria bem mais difícil’’ se recebesse o salário apenas uma vez por mês e se não contasse com o ‘bico’: ‘‘Se a pessoa não tem uma segunda renda, pode passar bem apertada durante o mês’’, afirma, mas reconhece que nem todos tem esta possibilidade porque já trabalham o dia todo.
  Na casa de Justino moram quatro pessoas: ele, a esposa e dois filhos. Ele afirma que dá para levar uma vida equilibrada, apesar das incertezas: ‘‘Não é toda semana que eu tenho esse serviço extra; tem mês que tem, tem mês que não’’.
  O técnico em telecomunicações Anderson Braga dos Santos e a bancária Cristiane Mestre Maroldi, mesmo sendo assalariados, não enfrentam problemas com as compras domésticas em qualquer etapa do mês. O casal tem o benefício do ticket, bem mais do que o suficiente para suprir suas necessidades. ‘‘Nosso valor é alto e a gente não mexe no salário para fazer compras’’, afirma Cristiane. E Santos diz que, às vezes, compram até coisas a mais para gastar os tickets. ‘‘Tem hora que a gente acaba exagerando um pouco e levando algum supérfluo, alguma coisa assim’’.
  Na opinião do casal, o benefício do ticket deveria ser estendido a todos os trabalhadores. ‘‘ O ticket atende apenas uma minoria. Ele é mais que essencial, é um complemento de salário’’. Em função das facilidades que tem, Santos e Cristiane preferem fazer as compras no mercado semanalmente.

Economista sugere reserva para gastos
  Para o economista Renato Pianowski de Moraes, o fato da maioria dos trabalhadores fazerem as compras nos supermercados assim que recebem o salário é uma forma de garantir o abastecimento em casa ao longo do mês. Segundo ele, sem esta medida preventiva, haveria uma forte tendência de se gastar o dinheiro em ‘‘outras coisas’’.
  Moraes sugere que as pessoas, para terem um orçamento mais equilibrado, organizem suas contas fazendo um fluxo de caixa e procurando ter sempre uma reserva para as compras eventuais ou despesas imprevistas com farmácias ou médicos. ‘‘A doença não manda recado’’, afirma.
  Ainda segundo o economista, como as pessoas recebem seus salários nos primeiros dias do mês, elas também preferem acertar a maior parte de suas contas neste período ‘‘para não ficar tão estressadas depois’’. (E.A.)

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