O aumento da população acima do peso considerado ‘‘normal’’ começa a envolver outros setores da economia, além das indústrias farmacêuticas e alimentícias. Agora é a vez das confecções reverem conceitos. Estima-se que cerca de 40% dos brasileiros estejam acima do peso, um fenômeno que se verifica também em dezenas de outros países.
  A corretora de imóveis Marli Aparecida dos Santos Custódio começou a ter problemas de sobrepeso há cinco anos, quando adquiriu hipotireoidismo - insuficiência fisiológica caracterizada pelo baixo metabolismo da glândula tireóide. A partir de então, Marli precisou usar roupas de tamanhos maiores, encontradas apenas em lojas especializadas, tornando-se uma cliente fiel. ‘‘Aqui encontro tudo o que preciso, desde peças íntimas, a roupas básicas para o dia-a-dia e até roupas para festas’’.
  Marli acredita que a alimentação inadequada é o principal motivo de boa parte da população estar acima do peso. ‘‘Hoje, cada vez mais, os funcionários estão morando no trabalho. As pessoas têm uma hora para o almoço e aproveitam este tempo para ir ao banco, para fazer as coisas pessoais, e como vai almoçar corretamente? A pessoa acaba comendo um marmitex ou um lanche por três reais. Você acha isso saudável?’’, questiona.
  Mesmo estando um pouco acima do peso, Marli diz que leva uma vida normal. ‘‘Trabalho sem nenhum problema e graças a Deus tenho disposição para tudo’’. Ela afirma, entretanto, que o maior problema não é estar acima do peso. ‘‘A sociedade tem preconceito com a pessoa obesa e muitos têm dificuldade até para arrumar emprego. Não é porque a pessoa é obesa que ela é incapaz. Ela pode fazer tudo’’, afirma.
  O cabeleireiro Jaime Giordani praticava uma série de atividades físicas até sofrer um acidente e machucar o joelho há dez anos. ‘‘Eu era quase atleta: fazia natação, andava de bicicleta e corria no Zerão. Não como muito, mas comecei a ganhar peso por falta de exercícios’’, afirma. Giordani vem mantendo o peso de 125 quilos, o que para ele não é nenhum problema. ‘‘Levo uma vida normal; tomo cerveja, como churrasco, só não abuso. E além disso, viajo e dirijo sem problemas’’.
  A única dificuldade apontada por ele é encontrar a roupa adequada. ‘‘Sou uma pessoa que gosta de roupa com folga, que dê conforto, e não é em qualquer loja que a gente encontra esse tipo de roupa’’. Ele demonstrou bom-humor quando se referiu às roupas de tamanho maior. ‘‘Acho que fica um pouquinho mais caro porque vai um pouco mais de pano também’’, afirma.

Oferta deveria ser maior, diz professora

  A empresária Sidália Lima tem uma loja há 15 anos que trabalha exclusivamente com roupas acima do tamanho 40. ‘‘Aqui tenho roupas para os públicos masculino e feminino, desde o esporte e o social até roupas íntimas’’, descreve. Segundo ela, a maior parte das mercadorias vem de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Fortaleza e as roupas de inverno do Rio Grande do Sul.
  Sidália tem observado que o número de pessoas acima do peso está aumentando a cada ano. Ela afirma que não se trata apenas de obesidade, e acredita que as pessoas estão ‘‘maiores’’ também em função das características genéticas ou porque deixam de praticar atividades físicas. ‘‘Hoje as academias estão cheias, mas às vezes as pessoas fazem exercícios só durante o verão e quando chega o inverno, ao invés de emagrecer, volta tudo’’.
  Muito cuidadosa com as palavras, a empresária afirma que ‘‘a pessoa grande só fica mal-vestida se quiser; ela pode se sentir muito bem vestida, superelegante, mesmo acima do peso’’.
  Censo - A professora Lucimar Bilmaia Emídio, do curso de Design de Moda na Universidade de Londrina, informa que não há um padrão de medidas de roupas no Brasil em função das diferentes etnias e também pelas características regionais. Ela afirma, entretanto, que o fato de 40% da população estar acima do peso começa a interferir no sistema de produção.
  O assunto, inclusive, será debatido no primeiro Fórum de Modelagem, no mês de abril em São Paulo, quando será proposta a realização de um censo antropométrico, ou seja, um estudo que vai reavaliar as tabelas de medidas adotadas no Brasil. ‘‘É hora das marcas reverem o tamanho de seus produtos porque existe uma demanda grande no mercado por tamanhos maiores e a oferta é muito pequena para este segmento’’, disse Lucimar.(E.A.)

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