A exemplo da maioria dos servidores públicos, a professora Maria Leonor de Oliveira tem um dia certo para ir ao supermercado. Assim que recebe o salário, ela já faz a compra do mês. ‘‘A gente não pode esperar muito, senão acaba o dinheiro’’, justifica. Ela ainda volta ao mercado a cada semana ou quinzena para as compras complementares do dia-a-dia.
  Maria Leonor está no magistério há 20 anos e tem dois padrões na rede estadual de ensino. A jornada de trabalho de um professor é chamada de padrão. Pela lógica, cada professor deveria ter apenas um padrão, que corresponde a 20 horas de trabalho por semana e assim ter tempo para se dedicar à pesquisa e outros afazeres. Porém, para manter a ‘‘qualidade de vida’’, uma boa parte dos professores assume um segundo padrão. Alguns, inclusive, conseguem a mágica de ter três padrões.
  A professora Maria Leonor tem dois padrões. De manhã, ela leciona inglês e português para a oitava série do ensino fundamental na Escola Estadual Gabriel Martins, no Jardim Bancários, região Oeste da cidade, e à noite ela dá aulas em outras duas escolas que ficam em bairros próximos. Hoje, as aulas noturnas são ministradas em dias alternados, mas até pouco tempo, ela deixava uma escola durante o intervalo para continuar a jornada em outra. E tudo isso, sem chegar atrasada.
  A compra do mês é um item que pesa no orçamento doméstico. Por isso, a professora precisa ser criteriosa na hora da compra. Ela admite que já levou mais em conta a qualidade que o preço quando está em um supermercado, mas hoje busca um ‘‘ponto de equilíbrio’’ entre os dois aspectos. Além disso, fica muito atenta ao prazo de validade.
  A professora diz que não é de fazer pechinchas, mas procura sempre os melhores preços. ‘‘Não compro de primeira, sou de ficar procurando, pesquiso’’. E a pesquisa de preços tem um motivo. De acordo com suas observações, os preços nos supermercados continuam subindo. ‘‘Do mês passado para este mês, senti uma diferença de preços muito grande para aquela compra que é básica, geralmente as mesmas coisas’’, afirma.
  Maria Leonor tem dois filhos, Eduardo de 14 anos, e André, de dois anos e meio, e prefere não levá-los às compras. Ela já experimentou levar o filho pequeno ao supermercado, mas reconhece que ‘‘o menino dá muito trabalho e não quero criar este costume’’.
  Independente disso, a professora se mostra muito preocupada com a segurança dos filhos. Como é separada do marido, ela mora em um apartamento e deixa os meninos na companhia do avô enquanto trabalha.

Categoria enfrenta dificuldades
  A professora Maria Leonor compara a vida de mestre com o sacerdócio, especialmente pelas dificuldades que a categoria enfrenta nos dias de hoje. ‘‘Sou professora por opção, e apesar de todos os problemas que nós temos, com o salário e o comportamento dos alunos, eu gosto de lidar com eles e não penso em me aposentar tão cedo’’, afirma.
  Segundo ela, está difícil exercer o magistério atualmente porque ‘‘o aluno vem para a escola cada vez menos preparado, e dentro da sala de aula o professor acaba sendo pai, mãe, psicólogo, enfermeiro, tudo ao mesmo tempo, ou seja, eles estão indo para a escola para o professor acabar de criar’’.
  Na opinião da professora, as causas destes problemas são a desestruturação familiar e o excesso de trabalho dos pais. Ela diz que, por estes motivos, o comportamento dos alunos mudou muito nos últimos 20 anos e ainda mais nos últimos 4 ou 5 anos. ‘‘Os pais procuram satisfazer os filhos sem colocar limites e assim as crianças ficam sem parâmetros, e os professores não têm autoridade para impor os limites necessários’’, explica.
  Outro detalhe citado pela professora e que reflete na escola é a inversão de valores que existe na sociedade atual. ‘‘Hoje vale mais o ter que o ser; a pessoa é valorizada pelo que tem e não pelo que 钒, afirma.
Por tudo isso, Maria Leonor acredita que o trabalho do professor deveria ser melhor valorizado.  (E.A.)

Contagem regressiva
No próximo dia 20 termina o prazo para que as padarias passem a vender o pão francês apenas pelo sistema de peso. Algumas delas adotam a mudança há poucos dias e outras ainda nem se manifestaram sobre o assunto.

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