A venda fracionada de remédios, criada há dois anos pelo governo federal com o objetivo de evitar o desperdício de medicamentos, enfrenta uma série de obstáculos. Há um conjunto de fatores que impedem a ''decolagem'' do programa: a produção industrial dificulta o fracionamento, a maioria dos médicos não usa de tal possibilidade nas receitas, os clientes têm pouco ou nenhum conhecimento sobre o assunto e as farmácias encaram a proposta com certa indiferença.
O funcionário público Guilherme Soares usa medicamentos em comprimidos para controlar a pressão. Ele disse que sabe da existência da lei sobre a venda fracionada de remédios, o que considera importante para ''baixar os preços''. Porém, acha desnecessária a obrigatoriedade de apresentação de receita médica, em alguns casos, para comprar o medicamento fracionado. ''Em minha opinião não há necessidade desta exigência quando é alguma coisa para o estômago, dor de cabeça, fígado ou para curar a ressaca''.
Soares afirma que comprou uma vez apenas a quantidade de remédios que precisava e diz que é favorável à medida, embora não sinta necessidade porque o medicamento que utiliza é de uso contínuo. ''Eu preciso tomar o remédio diariamente e não tem como fugir''. Uma caixa de comprimidos, segundo ele, dá para 28 dias.
A vendedora Gislaine Salvi foi a uma farmácia para comprar medicamentos porque estava com congestão nasal e irritação na garganta. ''A compra desses comprimidos é normal em casa. Eu pego gripe com facilidade. É só aparecer qualquer dorzinha de cabeça ou um vento lá longe que eu já estou passando mal''.
Quanto ao fracionamento, Gislaine não tem conhecimento do assunto, mas gostou da ''novidade''. ''É interessante porque evita o desperdício. Talvez eu não use tudo o que vou comprar aqui e o que sobra acaba vencendo e vai para o lixo, e com a lei eu compro só a quantidade que vou usar''. Gislaine acha também que todas as farmácias deveriam vender remédios fracionados. ''Tem que vender sim, ficaria bem mais fácil para o consumidor'', afirma.
A secretaria Sheila Lopes é criteriosa na compra de medicamentos. Ela diz que geralmente compra remédios com receita médica, só quando alguém da família realmente precisa, observa bem o prazo de validade e comprou antibióticos de forma fracionada uma vez. ''Para o que a gente ía precisar, uma caixa não dava e duas sobrava''. Sheila considera válida a experiência ''porque você não fica com remédio encostado e não vai usar em outra doença sem antes fazer um diagnóstico''. Na opinião dela, as farmácias deveriam ter como rotina a venda fracionada de medicamentos.


Farmácias alegam falta de segurança
  O empresário Rubens Benedito Augusto, dono de uma rede de farmácias em Londrina, justifica que a maioria dos estabelecimentos ainda não adotou a venda fracionada de remédios ‘‘devido aos cuidados com segurança’’. Ele argumenta que as farmácias não têm como fracionar os medicamentos na forma como eles chegam hoje ao mercado. ‘‘Se a indústria produzir uma embalagem fracionável, com toda segurança, aí a coisa muda’’. Isto significa que a embalagem como cada comprimido deve trazer, entre outras, informações sobre o medicamento, o código de barra e o prazo de validade.
  O empresário argumenta também que, de certa forma, a venda fracionada de remédios já existe na prática, independente da legislação. E cita o exemplo de alguns antibióticos que são vendidos em quantidades menores, com caixas contendo apenas três ou oito unidades. ‘‘São embalagens já adequadas ao tratamento’’, explica. Ele informa também que até para medicamentos de uso contínuo existem embalagens com poucos comprimidos. Segundo Augusto, não existe má vontade das farmácias em fazer a venda fracionada. ‘‘Do ponto de vista empresarial não faz a menor diferença’’, afirma. E cita o exemplo dos medicamentos de uso genérico que também enfrentaram certa resistência quando o programa foi criado, há cerca de dez anos. Os genéricos custam bem menos que os remédios de ‘‘grife’’ e hoje representam cerca de 15% do faturamento das farmácias, diz o empresário. (E.A.)

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