SUAS COMPRAS - Economista defende reformulação da cesta básica
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Eli Araujo<br>Reportagem local 
A cesta básica precisa ser reformulada para melhor se adaptar à realidade atual. A opinião é do professor e economista Flávio Oliveira dos Santos, que coordena a pesquisa de variação de preços da cesta básica em Londrina desde maio de 2001.
A cesta básica é o conjunto de produtos que fazem parte do consumo básico de uma família. Ela foi instituída em abril de 1938 com o decreto lei que fixou as regras para o salário mínimo no Brasil; portanto, há quase 70 anos. Neste período, a cesta básica já sofreu algumas alterações, mas o professor acredita que há necessidade de mudanças mais abrangentes.
Santos afirma também que o consumidor tem uma arma poderosa para manter a cesta básica sob controle: a pesquisa de preços. Ou seja, comprar apenas o necessário e o mais barato.
FOLHA - Qual o peso da cesta básica no orçamento doméstico?
Santos - Eu diria que para as pessoas que ganham dois ou três salários mínimos, 70% a 80% da renda é comprometida com alimentação. O salário mínimo hoje dá para comprar 2,13 cestas básicas para um adulto. Só que no caso de uma família de quatro pessoas, dois adultos e duas crianças, já inverte. Eu precisaria de 1,4 salário mínimo para comprar uma cesta básica. Ou seja, quem ganha salário mínimo, infelizmente, passa fome.
E o que deveria ser feito para mudar isso?
Eu acho que o caminho é o que tem sido adotado nos últimos anos: a cada data base do salário mínimo, dar um aumento real, um aumento acima do índice geral de preços, acima do índice de inflação. Se a inflação foi 5%, por exemplo, o reajuste tem que ser de 8%, 10%. Dar um aumento de 3% ou 4% acima da inflação é uma maneira de recompor o salário mínimo gradativamente.
A relação de itens da cesta básica é satisfatória ou deveria ser acrescentada alguma coisa?
Acho que deveriam ser acrescentados alguns produtos e reduzir a quantidade de outros para ficar mais condizente com os dias atuais. Poderíamos diminuir, por exemplo, a quantidade da margarina, da carne e da banana. Hoje em dia há uma ênfase muito grande na redução do consumo de carne vermelha. E deveria aumentar a quantidade de legumes, frutas e verduras.
Qual a relação que existe entre a cesta básica e a sazonalidade?
Sazonalidade é o mesmo que estacionalidade, ou seja, estação do ano. As pessoas que moram na cidade as vezes não tem noção, mas quem mora ou trabalha na zona rural sabe que as estações definem os preços de muitas das mercadorias que nós consumimos na cidade. Com exceção da margarina e do pão francês, os demais produtos são afetados pela sazonalidade. A margarina é industrializada e o pão francês depende da importação de trigo. Os demais produtos são diretamente afetados pelo clima, época de colheita e entressafra. E, além disso, ainda temos o problema de seca ou de excesso de chuva como acontece agora em algumas regiões do Brasil.
O que mais te chamou a atenção nestes anos de pesquisa em Londrina?
O que me chama a atenção é que a pessoa de menor poder aquisitivo não faz pesquisa de preço porque não tem como se locomover. Outra parcela da sociedade, a classe média, já faz pesquisa de preço. Uma parcela dos assalariados faz pesquisa de preço. Outra percepção é que nos supermercados localizados em regiões com pessoas de maior poder aquisitivo, normalmente o preço da cesta básica é mais alto.
A que se deve isso?
A alguns fatores. A carne, algumas vezes, é embalada e isso tem um custo adicional. Os hortifruti são melhor preparados, limpos, ajeitados na gôndola. Isso tem um efeito visual bonito e fica mais caro para o consumidor. O terceiro fator é que esta pessoa não é propensa à pesquisa por causa de comodidade. Ela sai de casa, desce do prédio, vai ao supermercado compra o que quer e não faz pesquisa de preço.
E qual a importância da pesquisa para o consumidor?
Eu digo que sempre vale a pena fazer pesquisa de preço. No último levantamento, tínhamos um supermercado no centro vendendo o cochão mole por R$ 7,95, enquanto essa mesma carne era vendida em outro supermercado por R$ 11,87. Isso dá uma diferença de 49%. Tivemos os dois extremos: o supermercado com a cesta básica mais barata e outro com a cesta básica mais cara.
E essa diferença de preços interfere no resultado da cesta básica?
Quando temos um supermercado vendendo a carne a um preço mais elevado, a tendência dos demais é aumentar o preço também. Se todo mundo aumenta um pouquinho, a cesta básica aumenta para cima e isso reduz o poder de compra das pessoas. Então, entra a necessidade da pesquisa de preço. A pesquisa só não vale a pena quando a pessoa não tem tempo, ou tem problemas físicos que dificultam a locomoção, ou quando ganha tão bem que a hora de trabalho é tão valiosa que não compensa fazer pesquisa de preço.
O que as pessoas comuns alegam para não fazer a pesquisa?
Elas dizem que não vale a pena financeiramente, que é melhor comprar tudo no mesmo lugar, que vão perder tempo, e que não há grande diferença de preço entre um estabelecimento e outro. Mas eu digo que há e por essa diferença vale a pena fazer pesquisa de preço.


