SUAS COMPRAS - Atenção à higiene dos lanches de rua
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segunda-feira, 20 de agosto de 2007
Eli Araujo<br> Reportagem local 
A falta de tempo para uma alimentação adequada obriga boa parte dos trabalhadores a comprar lanches e salgadinhos nas ruas. O aumento deste tipo de comércio informal pode ser observado tanto nos bairros quanto no centro de Londrina. Além dos lanches, é fácil encontrar pessoas vendendo doces, pipoca, queijos e frutas, entre outros produtos.
O problema é que o consumo de alimentos na rua, principalmente os lanches e salgadinhos, representa um sério risco para a população. O alerta é da microbiologista Luciana Furlaneto e da nutricionista Ana Flávia de Oliveira, professoras da área de nutrição em Londrina.
A situação é tão crítica que Luciana não hesita em afirmar. ''Hoje a gente não tem nenhum caso notificado de morte porque alguém comeu um lanche contaminado. Este é caso extremo, que ainda não ocorreu, mas pode acontecer com certeza. Depende de quem vai consumir''. Ela cita que o risco maior é para as pessoas que estão com a imunidade baixa, as crianças e os idosos.
A microbiologista acompanha o problema de perto há dois anos quando era professora na Unopar e coordenou um trabalho de conclusão de curso sobre o assunto. O TCC consistiu em recolher amostrar de lanches comercializados em vários locais da cidade, inclusive nos estabelecimentos convencionais.
Todas as amostras foram cuidadosamente analisadas em laboratório. E os exames microbiológicos apresentaram resultados surpreendentes: quase a totalidade dos alimentos apresentava algum tipo de problema relacionado com a falta de higiene. ''Nós detectamos microorganismos que não deveriam estar presentes nos lanches. São bactérias que podem causar intoxicação alimentar e, dependendo de quem consome, essa intoxicação pode ser bastante grave''.
As análises de laboratório constataram que a maior parte das bactérias tem origem no próprio corpo humano. ''A gente encontrou bactérias presentes na boca, nas fossas nasais, no intestino. O manipulador - ao falar em cima do lanche, entrar em contato com a secreção nasal e não limpar as mãos após o uso dos sanitários - acaba levando esses microorganismos para o lanche''.
A professora Luciana Furlaneto cita que o problema poderia ser amenizado de duas maneiras. A primeira é oferecer as condições mínimas necessárias para as pessoas que preparam os alimentos, tais como acesso a banheiro e água corrente. A segunda seria o treinamento dos manipuladores sobre noções básicas de higiene.
No trabalho de conclusão de curso, os manipuladores demonstraram conhecer os problemas causados pela falta de higiene. ''Muitos sabiam o que não podia ser feito, e mesmo assim faziam'', diz Luciana. De acordo com a professora, uma das maiores barreiras é de origem ''cultural'' e está relacionada a preconceito. ''Uma das justificativas é a de que se ficassem com o avental muito limpinho, com tocas e luvas, isto poderia parecer frescura para os demais ambulantes que estão por perto''.
A nutricionista Ana Flávia de Oliveira aponta outro problema para o consumo de alimentos na rua, além da falta de higiene. ''Normalmente, esses lanches têm muito mais gordura do que deveria e isso, a longo prazo, pode aumentar o colesterol, os triglicerídes e favorecer o ganho de peso''.
Ela acrescenta que, além disso, esses lanches não suprem as necessidades nutricionais de uma pessoa. ''Um lanche, eventualmente, pode substituir uma refeição, mas não diariamente. Um pão com hamburger e condimentos não é equivalente a um prato com arroz, feijão, carne, verdura e legumes. Não tem o mesmo valor nutricional''.
Quanto aos outros tipos de alimentos comercializados na rua, o que mais chama a atenção de Ana Flávia são os queijos. Segundo ela, estes produtos estão sujeitos à contaminação por bactérias por estarem expostos ao ar livre, portanto sem um sistema de refrigeração.
Com relação às frutas, ela diz que o risco existe, ''mas é um pouco menor''. E sugere que as frutas sejam descascadas e bem lavadas antes do consumo.
Diarréia é problema mais freqüente
A nutricionista Ana Flávia de Oliveira afirma que a diarréia é o problema mais frequente no consumo de alimentos preparados sem a devida higiene. E segundo ela, há indícios de que este tipo de doença está aumentando. ''Como há variações de intensidade na diarréia, muitas vezes a pessoa acha que isso é normal e não associa a doença com o lanche que comeu''. Ana Flávia diz que os casos considerados mais graves são encaminhados aos hospitais e como a notificação não é obrigatória, ''não há como saber em nível local ou nacional, quantas pessoas têm intoxicação alimentar''.
E a microbiologista Luciana Furlaneto completa informando que antes da diarréia a pessoa pode apresentar outros sintomas da intoxicação, tais como náuseas, dor de cabeça, dores na barriga, mal estar e enjôos. ''Não precisa que todos os sintomas aparecam juntos. Tudo vai depender da quantidade de microorganismos ingerida e da condição de saúde do indivíduo. Às vezes, uma pessoa imunologicamente mais forte pode ter um destes sintomas e não perceber''. Luciana aponta que outra agravante para o problema é a automedicação.
As duas professoras ainda sugerem o que poderia ser feito para mudar este panorama. Na opinião de Luciana, uma forma seria a população se conscientizar sobra a gravidade do problema. ''A própria população deveria fiscalizar o que consome; não ir atrás de um lanche só porque é mais barato. Mesmo que pague alguns centavos a mais, as pessoas devem procurar um local um pouco melhor em termos de higiene''.
E para a nutricionista Ana Flávia de Oliveira, a Vigilância Sanitária deveria fiscalizar o comércio de alimentos na rua, assim como fiscaliza os estabelecimentos convencionais.
A coordenadora do setor de alimentos e zoonoses da Vigilância Sanitária, Graça Deliberador, diz que o órgão só fiscaliza os estabelecimentos com registro na Prefeitura, não havendo nenhum trabalho com o comércio de alimentos nas ruas. A fiscalização, entretanto, pode acontecer mediante alguma reclamação dos consumidores. No geral, o órgão recebe entre três a sete reclamações por semana.(E.A.)


