O interesse da garotada pelo futebol se manifesta cada vez mais cedo e vem acompanhado de uma boa dose de ansiedade. A prova está nas peneiradas para selecionar os meninos que demonstram maior intimidade com a bola. Nem mesmo o tempo chuvoso ou o excesso de calor impedem que dezenas deles participem do evento que pode ser o pontapé inicial na carreira como jogador de futebol. Recentemente, cerca de 300 inscritos, com idade entre 10 e 15 anos, compareceram aos campos do Centro de Treinamento de Futebol do Paraná (do inglês, PSTC) para demonstrar tais habilidades. Os candidatos eram observados por atentos ''olheiros'', ou descobridor de talentos.
A maioria dos garotos aguardou o dia da peneirada com certa expectativa. A vontade era tanta que o menino Cauê de Souza, de 11 anos, nem dormiu direito com medo de perder a hora. Às seis e meia da manhã ele já estava acordado. E incorporando a máxima que ''não basta ser pai, tem que participar'', o representante comercial Cauby Luciano de Souza ignorou o mau tempo e levou o filho para participar do ''processo seletivo''. Souza ficou ao lado do gramado, embaixo de chuva, torcendo pelo filho.
Ele diz que o menino sempre gostou de futebol, mas que o interesse aumentou na primeira fase do jogador Robinho no Santos. Hoje, Cauê recebe todo incentivo da família para ir aos treinos na escolinha e em outras atividades esportivas, mas é orientado para manter os estudos como prioridade. ''Em casa, colocamos a seguinte regra: antes de tudo, tem que estudar e, se for da vontade de Deus, ele poderá até se tornar um jogador profissional''. E mesmo sendo apaixonado por futebol, Cauê pensa em fazer Engenharia Civil no futuro.
O professor de Educação Física Nilson Quintanilha Moreno, responsável pela coordenação técnica do PSTC, diz que a fase de profissionalização no futebol está começando cada vez mais cedo. Hoje, segundo eles, há garotos que, apesar da idade entre 10 e 12 anos, demonstram talento pelo futebol. ''As empresas investem no garoto que tem chance de se projetar e isto acaba atraindo uma grande parte dos jovens que vê no futebol a possibilidade de uma profissão''.
Moreno alerta, no entanto, que a concorrência é muito grande e que por isso poucos conseguem passar ''pelo funil'' e serem aproveitados por um clube. A estimativa é que apenas 10% dos garotos passem para a segunda fase da peneirada. E mesmo que o adolescente consiga ingressar em um clube, é importante não perder de vista os estudos porque a carreira de jogador profissional é relativamente curta. ''O estudo é importante porque o jogador, mesmo atuando, precisa manter um certo nível cultural para dar sequência à vida depois que parar com o futebol'', orienta Moreno.
Segundo o professor, a mídia é a principal responsável por tanto interesse dos garotos pelo futebol, o que deve aumentar ainda mais com a realização da Copa do Mundo deste ano e com a Copa e Olimpíadas que vão acontecer no Brasil em 2014 e 2016.




Vi­da de jo­ga­dor é uma ‘­vitrine’


O menino Márcio Rafael Ferreira de Souza iniciou a carreira no futebol de salão no Grêmio Recreativo Londrinense, em 1992 com apenas sete anos. Depois foi para o PSTC, onde se decidiu pelo futebol. Hoje, aos 24 anos, Rafinha atua no FC Schalke 04, na Alemanha. Antes, passou pelo Londrina, Coritiba, São Paulo, Juventus e pela seleção brasileira sub 20 - para jogadores com menos de 20 anos de idade.
Rafinha considera normal que haja tanto interesse da garotada em seguir carreira no futebol, mas afirma que esta intenção não deve se sobrepor aos estudos. ''A escola deve vir em primeiro lugar porque a pessoa precisa ter o respeito que todo cidadão merece, mesmo que não seja jogador de futebol''.
E como a carreira de jogador é muito curta, mesmo que seja bem sucedida, existe a necessidade de se pensar, ainda cedo, em uma segunda alternativa. ''O jogador tem que se ser inteligente, não cometer erros como outros jogadores cometeram no passado e hoje estão em situação difícil. O nosso dinheiro é suado, como o de todo trabalhador'', justifica.
Ele afirma também que a família equilibrada ajuda na formação do garoto que quer ingressar no futebol. ''A gente precisa sempre fazer as coisas corretas, levar a vida com honestidade, ser disciplinado e servir de exemplo, porque o futebol é como uma vitrine que tem milhões e milhões de pessoas nos olhando''. (E.A.)

mockup