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sexta-feira, 04 de dezembro de 2009
Fábio Galão<br>Equipe da Folha 
Curitiba - ''Algum tempo atrás, diziam que a oceanografia era a profissão do futuro. Eu ainda digo que é a profissão do futuro. Porque não é a do presente ainda.'' A declaração é do oceanógrafo Dirceu Eliseiri Júnior. E reflete bem como os profissionais da área enxergam o setor atualmente: com um potencial sendo desenvolvido, mais oportunidades surgindo, mas sem experimentar exatamente um momento de ''boom''.
O oceanógrafo Antonio Ostrensky, coordenador do Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais (GIA), grupo de pesquisa ligado à Universidade Federal do Paraná (UFPR), destaca que as opções de trabalho aumentaram nos últimos anos. ''A oceanografia é uma área ampla e existe uma demanda grande por estudos do tipo, entre outras razões, pela busca de petróleo e outros recursos em áreas costeiras'', explica.
Profissionais entrevistados pela FOLHA dizem que as principais oportunidades de trabalho para oceanógrafos estão nas empresas que trabalham no ambiente marinho (de setores como petróleo, dragagem e navegação), órgãos públicos, principalmente aqueles ligados às áreas ambiental e de pesca, consultorias, ongs e na carreira acadêmica.
''A oceanografia oferece uma formação multidisciplinar, que permite trabalhar em várias áreas de conhecimento'', explica Maurício Garcia de Camargo, coordenador do curso de Oceanografia da UFPR. ''Quem trabalha na área lida com conteúdos das áreas biológica, geológica, exata e social.''
O GIA, criado há 11 anos e que tem uma equipe com profissionais de formações variadas, mantém uma agenda cheia. De acordo com Antonio Ostrensky, entre os trabalhos do grupo, estão avaliação de impactos ambientais causados por ações de prospecção, estudos para cultivo de organismos aquáticos (peixes e ostras, por exemplo), investigação sobre mortandade de organismos, análise de alternativas de geração de renda para comunidades que vivem em áreas que sofrem danos ambientais, entre outras iniciativas.
Dirceu Eliseiri Júnior é um dos proprietários da empresa de consultoria Hidrosfera, no Rio de Janeiro. ''Estamos focados no mercado de empresas privadas. Trabalhamos muito nas áreas de petróleo e gás, com atividades voltadas a licenciamento de empreendimentos, estudos de impactos ambientais, levantamentos de campo, análises de risco, monitoramento ambiental após a instalação do empreendimento, entre outras'', aponta o oceanógrafo.
Antonio Ostrensky, do GIA, argumenta que, ao mesmo tempo em que a formação multidisciplinar proporciona versatilidade ao profissional da área, ela não garante nenhuma espécie de reserva de mercado. ''Esse mercado (de estudos marinhos) é muito pouco 'exclusivo' para esta ou aquela área. É uma atividade que exige conhecimento multidisciplinar, e por isso há concorrência de várias áreas. Para ser bem sucedido, vai da competência de cada um'', diz Ostrensky.
''Por exemplo, se o profissional toma o rumo da oceanografia química, ele pode enfrentar concorrência de pessoas com formação em química, bioquímica. Outros cursos podem oferecer profissionais para essas demandas'', exemplifica o oceanógrafo.
Maurício Garcia de Camargo acredita que o recente reconhecimento oficial da profissão no Brasil vai colaborar para a oferta de mais oportunidades para os oceanógrafos.
''No ano passado, a profissão foi regulamentada. O mercado, que já vinha melhorando nos últimos 10 anos, vai certamente ter mais demanda. No ano passado e neste já tivemos concursos públicos específicos para oceanógrafos'', diz o professor. Ele descreve as possibilidades de rendimentos na profissão: ''A remuneração varia muito, conforme a atividade. Mas dá para dizer que os ganhos equivalem aos de geólogos e biólogos, cujas atribuições também variam muito.''
Maior oferta de cursos desperta desconfiança
Curitiba - Profissionais entrevistados pela FOLHA citam que, quando eram estudantes, havia apenas dois cursos de Oceanografia em todo o Brasil. Hoje, há 13 escolas na área reconhecidas pelo Ministério da Educação (MEC). O curso da UFPR, com sede no Centro de Estudos do Mar, em Pontal do Paraná (Litoral), foi criado em 2000 e é o único do Estado.
A maior oferta de cursos desperta desconfiança entre muitos oceanógrafos. Há demanda por profissionais em potencial, mas não real. Aumentou o uso do profissional de oceanografia, mas isso aconteceu ao longo de anos. Acredito que a desova de profissionais está acima da demanda, opina Dirceu Eliseiri Júnior.
Antonio Ostrensky, do GIA, aponta que a criação de novas escolas de Oceanografia nem sempre leva em conta o momento do mercado de trabalho. Criaram-se mais demandas e mais cursos, mas uma coisa não tem exatamente relação com a outra, diz o pesquisador.
Dirceu Eliseiri Júnior ressalta a necessidade de dar melhor estrutura aos cursos, já que a formação em oceanografia não é completa sem o contato intenso com o objeto de tra-balho. A Marinha está se equipando muito e disponibilizando estrutura para os cursos, e isso é muito positivo para a Oceanografia brasileira, argumenta o consultor.
Maurício Garcia de Camargo, da UFPR, considera natural o aumento do número de cursos. Esse crescimento acompanhou, em um primeiro momento, a demanda por profissionais. O governo também tem estimulado a expansão de novos cursos. Eu acho que é algo natural. Acredito que, com mais profissionais no mercado, vai haver mais demanda também. A questão principal é a especialização. O oceanógrafo não pode deixar de estudar após o período do curso. Precisa se aprimorar, se especializar. Não conheço ninguém na área com mestrado ou doutorado que esteja desempregado, explica o professor.
Fernanda de Souza, 22 anos, está no último ano do curso de oceanografia da UFPR. O que me chamou a atenção foi o campo de atuação (do oceanógrafo) e o fato de o curso (da UFPR) ser todo na praia, diz a estudante, que planeja fazer mestrado em seguida. A vantagem dessa profissão é que ela oferece muitas possibi-lidades, explica. (F.G.)


