Curitiba - ''Algum tempo atrás, diziam que a oceanografia era a profissão do futuro. Eu ainda digo que é a profissão do futuro. Porque não é a do presente ainda.'' A declaração é do oceanógrafo Dirceu Eliseiri Júnior. E reflete bem como os profissionais da área enxergam o setor atualmente: com um potencial sendo desenvolvido, mais oportunidades surgindo, mas sem experimentar exatamente um momento de ''boom''.
O oceanógrafo Antonio Ostrensky, coordenador do Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais (GIA), grupo de pesquisa ligado à Universidade Federal do Paraná (UFPR), destaca que as opções de trabalho aumentaram nos últimos anos. ''A oceanografia é uma área ampla e existe uma demanda grande por estudos do tipo, entre outras razões, pela busca de petróleo e outros recursos em áreas costeiras'', explica.
Profissionais entrevistados pela FOLHA dizem que as principais oportunidades de trabalho para oceanógrafos estão nas empresas que trabalham no ambiente marinho (de setores como petróleo, dragagem e navegação), órgãos públicos, principalmente aqueles ligados às áreas ambiental e de pesca, consultorias, ongs e na carreira acadêmica.
''A oceanografia oferece uma formação multidisciplinar, que permite trabalhar em várias áreas de conhecimento'', explica Maurício Garcia de Camargo, coordenador do curso de Oceanografia da UFPR. ''Quem trabalha na área lida com conteúdos das áreas biológica, geológica, exata e social.''
O GIA, criado há 11 anos e que tem uma equipe com profissionais de formações variadas, mantém uma agenda cheia. De acordo com Antonio Ostrensky, entre os trabalhos do grupo, estão avaliação de impactos ambientais causados por ações de prospecção, estudos para cultivo de organismos aquáticos (peixes e ostras, por exemplo), investigação sobre mortandade de organismos, análise de alternativas de geração de renda para comunidades que vivem em áreas que sofrem danos ambientais, entre outras iniciativas.
Dirceu Eliseiri Júnior é um dos proprietários da empresa de consultoria Hidrosfera, no Rio de Janeiro. ''Estamos focados no mercado de empresas privadas. Trabalhamos muito nas áreas de petróleo e gás, com atividades voltadas a licenciamento de empreendimentos, estudos de impactos ambientais, levantamentos de campo, análises de risco, monitoramento ambiental após a instalação do empreendimento, entre outras'', aponta o oceanógrafo.
Antonio Ostrensky, do GIA, argumenta que, ao mesmo tempo em que a formação multidisciplinar proporciona versatilidade ao profissional da área, ela não garante nenhuma espécie de reserva de mercado. ''Esse mercado (de estudos marinhos) é muito pouco 'exclusivo' para esta ou aquela área. É uma atividade que exige conhecimento multidisciplinar, e por isso há concorrência de várias áreas. Para ser bem sucedido, vai da competência de cada um'', diz Ostrensky.
''Por exemplo, se o profissional toma o rumo da oceanografia química, ele pode enfrentar concorrência de pessoas com formação em química, bioquímica. Outros cursos podem oferecer profissionais para essas demandas'', exemplifica o oceanógrafo.
Maurício Garcia de Camargo acredita que o recente reconhecimento oficial da profissão no Brasil vai colaborar para a oferta de mais oportunidades para os oceanógrafos.
''No ano passado, a profissão foi regulamentada. O mercado, que já vinha melhorando nos últimos 10 anos, vai certamente ter mais demanda. No ano passado e neste já tivemos concursos públicos específicos para oceanógrafos'', diz o professor. Ele descreve as possibilidades de rendimentos na profissão: ''A remuneração varia muito, conforme a atividade. Mas dá para dizer que os ganhos equivalem aos de geólogos e biólogos, cujas atribuições também variam muito.''


­Maior ofer­ta de cur­sos des­per­ta des­con­fian­ça
  Cu­ri­ti­ba - Pro­fis­sio­nais en­tre­vis­ta­dos pe­la FO­LHA ci­tam que, quan­do ­eram es­tu­dan­tes, ha­via ape­nas ­dois cur­sos de Ocea­no­gra­fia em to­do o Bra­sil. Ho­je, há 13 es­co­las na ­área re­co­nhe­ci­das pe­lo Mi­nis­té­rio da Edu­ca­ção (MEC). O cur­so da ­UFPR, com se­de no Cen­tro de Es­tu­dos do Mar, em Pon­tal do Pa­ra­ná (Li­to­ral), foi cria­do em 2000 e é o úni­co do Es­ta­do.
  A ­maior ofer­ta de cur­sos des­per­ta des­con­fian­ça en­tre mui­tos ocea­nó­gra­fos. ‘‘Há de­man­da por pro­fis­sio­nais em po­ten­cial, mas não ­real. Au­men­tou o uso do pro­fis­sio­nal de ocea­no­gra­fia, mas is­so acon­te­ceu ao lon­go de ­anos. Acre­di­to que a ‘­desova’ de pro­fis­sio­nais es­tá aci­ma da ­demanda’’, opi­na Dir­ceu Eli­sei­ri Jú­nior.
  An­to­nio Os­trensky, do GIA, apon­ta que a cria­ção de no­vas es­co­las de Ocea­no­gra­fia nem sem­pre le­va em con­ta o mo­men­to do mer­ca­do de tra­ba­lho. ‘‘Cria­ram-se ­mais de­man­das e ­mais cur­sos, mas uma coi­sa não tem exa­ta­men­te re­la­ção com a ­outra’’, diz o pes­qui­sa­dor.
  Dir­ceu Eli­sei­ri Jú­nior res­sal­ta a ne­ces­si­da­de de dar me­lhor es­tru­tu­ra aos cur­sos, já que a for­ma­ção em ocea­no­gra­fia não é com­ple­ta sem o con­ta­to in­ten­so com o ‘‘ob­je­to de ­tra-balho’’. ‘‘A Ma­ri­nha es­tá se equi­pan­do mui­to e dis­po­ni­bi­li­zan­do es­tru­tu­ra pa­ra os cur­sos, e is­so é mui­to po­si­ti­vo pa­ra a Ocea­no­gra­fia ­brasileira’’, ar­gu­men­ta o con­sul­tor.
  Mau­rí­cio Gar­cia de Ca­mar­go, da ­UFPR, con­si­de­ra ‘‘­natural’’ o au­men­to do nú­me­ro de cur­sos. ‘‘Es­se cres­ci­men­to acom­pa­nhou, em um pri­mei­ro mo­men­to, a de­man­da por pro­fis­sio­nais. O go­ver­no tam­bém tem es­ti­mu­la­do a ex­pan­são de no­vos cur­sos. Eu ­acho que é al­go na­tu­ral. Acre­di­to que, com ­mais pro­fis­sio­nais no mer­ca­do, vai ha­ver ­mais de­man­da tam­bém. A ques­tão prin­ci­pal é a es­pe­cia­li­za­ção. O ocea­nó­gra­fo não po­de dei­xar de es­tu­dar ­após o pe­río­do do cur­so. Pre­ci­sa se apri­mo­rar, se es­pe­cia­li­zar. Não co­nhe­ço nin­guém na ­área com mes­tra­do ou dou­to­ra­do que es­te­ja ­desempregado’’, ex­pli­ca o pro­fes­sor.
  Fer­nan­da de Sou­za, 22 ­anos, es­tá no úl­ti­mo ano do cur­so de ocea­no­gra­fia da ­UFPR. ‘‘O que me cha­mou a aten­ção foi o cam­po de atua­ção (do ocea­nó­gra­fo) e o fa­to de o cur­so (da ­UFPR) ser to­do na ­praia’’, diz a es­tu­dan­te, que pla­ne­ja fa­zer mes­tra­do em se­gui­da. ‘‘A van­ta­gem des­sa pro­fis­são é que ela ofe­re­ce mui­tas ­possibi-lidades’’, ex­pli­ca. (F.G.)

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