Soja vive melhor momento de preços
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quinta-feira, 05 de junho de 1997
Oswaldo Petrin 
O mercado da soja está passando por um cenário ascendente que começou ano passado, depois de vários anos de preços achatados. Esta ascensão dos preços se deve principalmente à redução dos estoques mundiais que nunca estiveram tão baixos. Outro fator que concorre para a alta da soja é a queda dos juros internacionais que levou os fundos de investimentos a migrar para as commodities agrícolas.
Mas, embora haja pela frente um longo período favorável, nada impede que os preços sofram oscilações de curto prazo, reagindo a fatos novos como as notícias sobre o bom comportamento da safra norte-americana, por exemplo. Neste caso, apesar da previsão de alta a longo prazo, as cotações podem cair alguns pontos.
Além disso, o governo norte-americano liberou os 10 milhões de hectares que estavam em set-aside, o programa quinquenal do governo pelo qual os proprietários recebem indenização para não plantar. Desses 10 milhões de hectares que agora são incorporados à produção, pelo menos 40%, ou cerca de 1,4 milhão de ha serão ocupados pela soja.
Portanto, há uma situação de estoques baixos, pressionando os preços para cima. Mas o aumento da área e a previsão de uma boa safra norte-americana, vêm contrapor, no curto prazo, esta situação.
Por esta razão, o professor Ismael Mologni, especialista em mercado de commodities agrícolas, recomenda que o produtor venda a soja aos preços atuais, considerados excelentes. O risco de quem ficar na posição é uma queda repentina nos preços atuais, pela perspectiva da boa safra norte-americana. A propósito, Mologni lembra que os contratos de novembro fecharam em US$ 7/bushel dias atrás. Na quarta-feira, Chicago sinalizou novas quedas.
Para explicar a tendência do mercado, o professor Mologni faz uma retrospectiva dos últimos anos. Entre 1989 e 94 a média de preços praticados pelo mercado variou entre US$ 5,5 e US$ 6/bushel (27,215 quilos). Este valor apenas cobre os custos de produção. Em 96 chegou a US$ 8. O pior período foi entre 91 e 92 chegando a cair para US$ 5/bushel. De 1990 a 93, quando reagiu temporariamente (enchentes no Mississipi), voltando a cair em 94.
Os preços atuais R$ 16,50 a 17,00/saca (8,5 d bushell) é ótimo. Nós tivemos preços como estes em 1988, em pico de mercado e, por menor tempo, também em 1996, com médias de US$ 8,2/bushel. Agora, quase a US$ 9/bushel, é hora de vender. Vender e investir em insumos e tecnologia para a próxima safra porque produtividade continua sendo a determinante do lucro.
Sobre a migração dos fundos para a commoditie soja, ajudando a pressionar os preços para cima, Mologni observa que o governo norte-americano, ano passado, reduziu as taxas de juros. A prima-rate caiu de 8,5% para 6% ao ano. Com isso, o mercado financeiro ficou menos atrativo, deslocando os investimentos para outro setor. Como a economia norte-americana não parece propensa a elevar tão cedo as taxas de juros, para não prejudicar as atividades produtivas, é provável que esses fundos de investimentos continuem apostando em bolsa e contribuindo para a sustentação dos preços agrícolas.
Quando da mudança dos juros internacionais, ano passado, Mologni previu que a medida deveria repercutir nos preços da soja e que, apesar das previsões de aumento da produção, o mercado tenderia a reagir. Hoje, ou seja, mais de um ano depois, você tem um fato inusitado em que as safras são boas e, mesmo assim, os preços estão altos, observou Molongi.
Durante a fase de preços baixos o setor soja sofre forte descapitalização. Isto repercutiu em outros segmentos importantes da economia. As vendas de tratores desabaram refletindo nas indústrias de bens de capital. Os prejuízos da soja, decorrentes de um mercado recessivo, não são prejuízos apenas da soja: eles têm reflexos macroeconômicos, segundo Mologni. Se os preços da soja continuassem deprimidos por muito tempo, mantendo o produtor e a agroindústria descapitalizados, certamente muitas indústrias fornecedoras de equipamentos, por exmeplo, poderiam até quebrar. O mercado sempre encontra mecanismos macroeconômicos para salvar outros setores de bens de capital e insumos agrícolas.


