O ministro interino da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, José Amauri Dimarzio, alertou ontem os produtores rurais que quem for autuado plantando soja transgênica pagará multa de R$ 16 mil, terá as sementes apreendidas e ainda responderá a processo na Justiça. Ele lembrou que enquanto não for editada uma portaria alterando a lei que proíbe o plantio e a comercialização de transgênicos, os produtores só poderão retirar financiamentos comprovando a utilização apenas de sementes de soja convencional. No Rio Grande do Sul, 150 mil produtores afirmam ter apenas sementes de soja transgênica armazenadas para o plantio da próxima safra que se inicia a partir do dia 1º de outubro.
Entre os clientes do Brasil, há alguns que têm restrições à soja transgênica, como na União Européia e na Ásia. Por isso, há receio de que a liberação do plantio comercial da soja modificada geneticamente Roundup Ready possa fechar algumas portas e até comprometer a expansão da cultura no País. ''Acho que vamos fechar portas do mercado'', teme o agricultor Jacy Scanagatta, que está se preparando para plantar 7,6 mil hectares com soja no Paraná e no Mato Grosso. Alexandre Cattelan, pesquisador e chefe de comunicação e negócios da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Soja), também não acredita que a tecnologia constitua barreiras para os negócios externos. ''Os grandes mercados consomem soja produzida pelos Estados Unidos e pela Argentina. Então, não vejo qual restrição haverá em relação ao produto brasileiro'', comenta.
Além disso, Cattelan vê muitos benefícios na tecnologia, a começar pelo manejo da lavoura, principalmente em regiões onde há intensa proliferação de ervas daninhas, como é o caso do Rio Grande do Sul. ''Foi por isso, que a soja transgênica avançou muito por lá, mas de forma clandestina.'' O pesquisador diz que a transgenia contribui para a redução de custo de produção. ''O valor vai depender da taxa tecnológica (royalties) que a Monsanto vai cobrar e que ainda nao foi definida'', diz. Mesmo que se situe nos US$ 15 por hectare, conforme comentários do mercado, o técnico considera compensador, lembrando que os gaúchos economizaram R$ 200,00 por hectare na safra passada, o que corresponde a cerca de US$ 66.
Cattelan diz que a tecnologia da Monsanto apenas confere resistência da soja ao glifosato, o princípio ativo do herbicida. Por isso, ninguém deve esperar aumento de produtividade ou resistência a doenças e pragas. Ele explica que no Rio Grande do Sul o aumento da produção ocorreu porque se eliminou a competição da planta invasora, o que é um efeito secundário. E alerta que o material contrabandeado da Argentina pode introduzir doenças e pragas inexistentes no Brasil, risco que será eliminado quando o produto brasileiro estiver disponível no mercado.
Segundo maior produtor mundial de soja, o País deve colher 58 milhões de toneladas na safra 2003/04, superando em 12% os 52 milhões de toneladas atuais, segundo a Confederação Nacional da Agricultura e da Pecuária (CNA). O Paraná, um dos principais estados produtores de grãos, produziu 10,92 milhões de toneladas da oleaginosa. A próxima safra está estimada em 11,46 milhões de toneladas, pelo acompanhamento do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual da Agricultura e Abastecimento. E o País deve superar neste ano a exportação norte-americana em US$ 800 milhões, considerando que a expectativa é chegar ao final do exercício com US$ 8 bilhões no complexo soja, frente aos US$ 7,2 bilhões das vendas externas dos Estados Unidos.
Nos últimos 13 anos, a produtividade brasileira de soja teve incremento de 6,3% ao ano, enquanto a expansão de área se situou em 1,2% ao ano, segundo estudo do Ministério da Agricultura e da Pecuária (Mapa). E o País, se continuar nesse caminho, em 12 anos será o maior produtor agrícola do mundo e consequentemente de soja.

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