Vânia Casado
De Curitiba
Os importadores europeus de produtos derivados de soja que abastecem a indústria de alimentos estão se voltando para o Brasil, à procura de produtos não-transgênicos. Com isso está se abrindo um novo mercado para o País, antes ocupado pelos Estados Unidos e Argentina. Uma das empresas beneficiárias desse novo cenário é a paranaense Imcopa, que produz lecitina de soja. Nos últimos dois anos, a empresa dobrou a capacidade de produção para atender os contratos de exportação de acordo com as exigências dos importadores da Europa.
‘‘Apesar do aumento do interesse, os europeus não estão pagando mais pela soja não-transgênica’’, lamenta Enrique Traver, gerente geral da Imcopa. Ele acredita que o pagamento diferenciado virá naturalmente por uma questão de mercado, porque a procura pelo produto brasileiro tende a crescer e com isso certamente será mais valorizado. ‘‘Por enquanto o benefício se restringe à abertura do mercado europeu, difícil de ser conquistado’’, afirma.
As empresas brasileiras estão apostando numa nova legislação, em gestação, dos países europeus que irá proibir a compra de produtos transgênicos principalmente aqueles direcionados para a indústria de alimentação. Segundo Traver, a negociação dessa legislação é intensa nos países da Escandinávia, na Inglaterra e França e tudo indica que até abril, deverá estar definitivamente implantada.
Quando isso acontecer, certamente mais empresas da Europa estarão interessadas em comprar grão e derivados de soja convencional. E o Brasil se destaca como o único dos três países produtores (Estados Unidos, Brasil e Argentina) a ter uma legislação específica que proíbe oficialmente o plantio de soja transgênica, disse o empresário.
Inclusive essa legislação tem sido usada como arma pelos importadores europeus para não pagar um prêmio pela soja brasileira, plantada de forma convencional e chegam até a ameaçar o governo brasileiro. Segundo Traver, eles afirmam que vão comprar soja e derivados no Brasil e farão testes para saber se os produtos estão geneticamente modificados ou não no destino final. Se encontrarem organismos geneticamente modificados (OGMs) vão acionar o governo brasileiro porque o País tem uma legislação que proíbe o plantio do produto e internacionalmente tem que responder por isso.
Atualmente, a indústria de alimentação infantil da Europa é a que apresenta maior interesse pela produção brasileira de derivados de soja. A indústria consome muita lecitina de soja para fabricação de seus produtos e até há dois anos atrás só comprava o produto nos Estados Unidos, que dominam esse mercado. Agora a indústria está se antecipando à essa legislação e já está comprando da Imcopa, empresa sediada em Araucária, região metropolitana de Curitiba, que antes produzia lecitina apenas para o mercado interno.
Para atender essa abertura de mercado, a empresa teve que dobrar a capacidade de produção de 2.000 toneladas para 4.000 toneladas por ano, que corresponde a contratos que chegam até US$ 90 milhões anuais. Para garantir a origem dessa produção, a Imcopa tem feito a rastreabilidade da produção, fazendo testes nas lavouras.

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