Sebastião Moreira/Agência Estado‘Colega de FHC’O professor desempregado Raimundo Oliveira e os filhos: ‘Maldição do presidente, que não crê em Deus’Sentado no meio do calçadão da Rua Barão de Itapetininga, entre duas lanchonetes do MacDonald’s, o desempregado Raimundo Oliveira, de 45 anos, chama a atenção dos pedestres. Ele, a esposa Silvanara Melo e sete filhos, com idade entre 11 e um ano, seguram placas em que imploram por um emprego e ajuda para pagar o aluguel de R$ 300. ‘‘Sou professor e estou desempregado’’, diz numa das placas.
Raimundo diz que não está pedindo esmolas. ‘‘É uma doação, pois não tenho outra alternativa.’’ Ele conta que ficou desempregado no final do ano passado, após dois anos dando aulas de sociologia e filosofia na Escola Técnica Federal em São Luiz do Maranhão. Garante que estudou economia, direito e administração durante 11 anos na Universidade Brás Cubas, em Mogi das Cruzes (SP), mas não conseguiu se formar.
Foi inspetor de qualidade, auxiliar administrativo, mecânico, fez curso do Senai e diz ter saudades dos anos 70, quando era muito mais fácil arrumar emprego em São Paulo. Reclama da política econômica e diz que o desemprego está crescendo porque o presidente Fernando Henrique Cardoso não acredita em Deus. ‘‘A maldição contra ele atinge a todos nós’’, comenta, segurando a Bíblia e atraindo a atenção de outros desempregados.
Compara a sua situação à do personagem bíblico Jó. ‘‘Ele era uma espécie de Antônio Ermírio daquela época, e Deus tirou tudo dele para testar a sua fé.’’ As crianças brincam sobre os classificados de empregos dos jornais que forram o chão. ‘‘90% desses anúncios são picaretagem, você vai lá e eles querem uma taxa para fazer o cadastro mas não tem emprego nenhum.’’
Com fé, o sociólogo Raimundo, que tem a mesma profissão que o presidente Fernando Henrique, diz ter certeza de que, como Jó, vai conseguir um emprego que permita sustentar a família e quitar as prestações que deixou na Arapuã de São Luiz. ‘‘Comprei uma geladeira e uns móveis mas depois entrei em falência.’’
Raquel, a filha mais velha, que estuda na escola estadual São Paulo da Cruz, em Osasco, segura uma placa: ‘‘Apesar de tudo, acreditamos em Deus.’’ Alguns passam e fazem piadas, mas Raimundo diz que um em cada cem pára e dá algum auxílio.
Ele explica que fica em média dez dias pedindo para conseguir juntar o dinheiro do aluguel. Depois, deixa a família em casa e passa o resto do mês procurando emprego. ‘‘Visto a melhor roupa, faço a barba e fico perambulando, mostrando meu currículo.’’

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