Sobre águias e galinhas
Sobre águias e galinhas
O voo de águia longo, alto e com sustentação é uma metáfora usada nos meios econômicos em alusão à recuperação econômica consistente e estável porque estão dadas as condições necessárias para que tal aconteça.
Em contraste está o voo de galinha curto, instável e barulhento, em referência a crescimentos econômicos pífios e erráticos, próprios de quando as medidas necessárias para voos longos são negligenciadas.
Buscar primeiro o equilíbrio fiscal ou aumentar os gastos do governo com investimento
Matizes diferentes de pensamentos econômicos estão à procura de soluções que permitam a nossa economia voltar a crescer, gerar renda e empregos.
De um lado, há os que defendem que o Estado não se preocupe com deficits fiscais recorrentes e sim aumente seu endividamento, liberando recursos para investimento, em especial na infraestrutura, e desta forma alavancando a retomada do crescimento econômico.
Outro matiz, considera que é preciso primeiro, ou pelo menos em concomitância, equacionar as contas do governo promovendo um ajuste na sua política fiscal, por meio das reformas necessárias, garantindo assim as condições para um crescimento sustentável.
Política Fiscal
É o nome dado às ações do governo destinadas a ajustar seus níveis de gastos, adequando a receita proveniente da arrecadação de impostos, com as despesas na previdência social, no pagamento dos funcionários públicos, na educação, na saúde, em investimentos, da forma mais racional e eficaz possível.
Crise Fiscal ...
Quando a arrecadação do Estado é incapaz de bancar as despesas e é crescente a incapacidade do Estado de atender às demandas cada vez maiores dos vários setores da economia e grupos correspondentes, está caracterizada uma crise fiscal.
... e endividamento...
Na busca de atender de alguma forma as demandas sociais, o Estado toma dinheiro emprestado da sociedade por meio de emissão de títulos públicos, ou seja, vai se endividando.
Nossa dívida bruta nominal cresce a uma taxa média de 12% ao ano. Saltou de R$ 1,6 tri em julho de 2008 para R$ 4,7 tri em julho de 2017.
Como percentual do PIB a dívida pública era de 53% em 2008 e devemos fechar 2017 com uma dívida correspondente a 78% do PIB.
Nesta toada, até 2020 a dívida pública já terá ultrapassado a casa dos 100% do PIB.
Fonte: Banco Central do Brasil, 2017
... levando à Dominância Fiscal.
Dominância fiscal é quando o governo já não consegue aumentar a arrecadação via impostos e a dívida do país se torna tão elevada que fica difícil captar mais recursos, mesmo aumentando os juros, pois começa a ficar evidente a incapacidade do governo em honrar seus compromissos.
Com o governo sem poder pagar suas dívidas, a solução é imprimir dinheiro, que é outra forma de imposto, pois causa inflação e consequente perda de poder de compra de todos nós.
Em vez de crescimento econômico temos uma dívida crescente, inflação em descontrole e elevação nas taxas de juros.
Um voo de águia ou um voo de galinha?
Sem equacionar o problema de receitas e despesas do governo, fazendo com que haja uma clara sinalização para o mercado que caminhamos para uma melhor gestão dos recursos e consequente redução da dívida como percentual do PIB estaremos fadados a manter uma trajetória de voo de galinha.
Esta discussão é muito mais profunda do que seria possível abordar nesta coluna e já vem de longa data. André Lara Resende a aborda com muita propriedade em seu livro Juros, Moeda e Ortodoxia, relatando o antagonismo entre as ideias de Roberto Simonsen e Eugênio Gudin. Vale a pena a leitura.
Dr. Marcos J. G. Rambalducci, economista, é professor da UTFPR. Escreve às segundas-feiras.





