No fim do século, o número de profetas cresce sem limites. Uns anunciam catástrofes, incluindo-se entre elas o fim do mundo. Outros, dias melhores, quando não o advento do paraíso terrestre. O raciocínio desenvolvido procura demonstrar a plausibilidade da profecia feita. Na realidade, procura-se extrapolar tendências do passado. Toda extrapolação é muito arriscada porque não leva em conta desenvolvimentos tecnológicos, possibilidades de exaustão de recursos naturais, guerras e mudança de comportamento das massas e, como consequência, do sistema legal vigente. Uma hipótese implícita em muitas previsões é que ele não mudará. Por exemplo, não criará empecilhos para a modernização da agricultura. Mesmo que ela reduza para alguns milhares os milhões (cerca de quatro milhões) de estabelecimentos nos quais se fundamenta nossa agricultura.
Numa sociedade dominada pelos consumidores urbanos, como é a nossa, pela via democrática, os seus interesses predominam sobre o resto da sociedade. Querem alimentos a preços estáveis e mesmo declinantes. O paradigma predominante mostra que somente a modernização da agricultura trouxe a estabilidade dos preços e, mesmo, a queda acentuada de muito deles. Entende-se, portanto, que os consumidores urbanos reagirão, até violentamente, contra leis que procurem cercear a modernização da agricultura.
Outra grande novidade deste fim de século é a abertura comercial que deve completar o ciclo no próximo século. Significa isto que nossa agricultura terá que competir com o resto do mundo para nos abastecer e exportar. E ganhar a competição, seja por pagar salários miseráveis seja por remunerar inadequadamente o capital e o esforço gerencial, não tem mais cabimento no Brasil. O homem somente se dedicará à agricultura se ela puder, em termos de remuneração, competir com as atividades urbanas. Caso contrário, migrará. Novamente, o paradigma aponta para a necessidade de tecnificar nossa agricultura, numa escala muito mais intensa que a do passado, como garantia de uma remuneração competitiva para o setor.
A educação atinge as massas urbanas. A grande maioria terá o primeiro grau completo. Os meios de comunicação já penetram quase todos os lares. Um povo instruído tem muito mais capacidade de decodificar mensagens e pressionar os legisladores para mudar as leis. A batalha pela melhor qualidade dos produtos que nos abastecem será um dos marcos do próximo século. Não somente os agrotóxicos serão os alvos preferidos. Mas a batalha se concentrará em alimentos que transmitem doenças aos homens. Muitas das tecnologias que não oferecem condições mínimas de higiene serão banidas. E, consequentemente, novos processos de produção, que evitem ao máximo o contato humano, terão que ser introduzidos. Em resumo, a batalha pela qualidade aprofundará a mecanização de nossa agricultura.
O Brasil já é um país urbanizado. Concentra 75% de sua população nas cidades. Mesmo no período de pequenas taxas de crescimento econômico, o êxodo rural não arrefeceu. Com a recuperação da economia, ela deve completar o ciclo. O Nordeste deve convergir para os índices de urbanização dos três estados da Região Sul, em torno de 80%. Significa isto uma redução da população rural nordestina de 17 para 9 milhões de habitantes. Aquela região representará, assim, a única e grande ameaça de um êxodo rural explosivo, feito de pessoas mal preparadas para o mercado de trabalho urbano. Deve merecer, por isto e por razões ligadas à redução das desigualdades regionais, especial atenção da política agrícola.
A redução da população rural, em grande parte fruto da atração das cidades, contribuirá para aprofundar a tecnificação da agricultura. É, assim, uma força que se juntará às já mencionadas, resultando numa agricultura que pouco empregará em nível de estabelecimentos. Outro efeito da tecnologia é a redução do número de estabelecimentos. Para produzir a mesma coisa é necessário muito menos área. Informações preliminares dão conta de que cerca de um milhão de estabelecimentos desapareceram entre 1985 e 1995.
O agricultor do amanhã precisará ter bom grau de instrução para se relacionar com o mundo inteiro, competir aqui, lá fora e praticar tecnologias complexas. Predominará a agricultura familiar, estando entre as possíveis exceções grãos e pecuária do corte. Mas a agricultura familiar que sobrevirá será tecnificada e integrada aos mercados mundiais. Não haverá lugar para gente pouco instruída. E este é o maior problema que os agricultores nordestinos e os assentados da reforma agrária enfrentarão. Aqui, como alhures, muitos são chamados e poucos os bem sucedidos: 25% ou menos dos chamados!
Parte da produção de grãos para exportação se deslocará para os cerrados nordestinos servidos pelo porto de São Luís e pela ferrovia Norte-Sul como também para Mato Grosso, Rondônia e Acre. A produção de frutas e hortaliças, principalmente para exportação, migrará para o Nordeste e, muito dela, para o Vale do São Francisco.
A política agrícola mergulhará na política econômica geral. O papel específico do Ministério da Agricultura será a tecnificação da agricultura e a defesa agropecuária. Obviamente, os ministros continuarão exercendo o seu papel de pressionar as autoridades econômicas contra a importação de alimentos, por juros baratos, redução de impostos, aquisição de estoques etc. Em contrapartida, a sociedade pressionará o ministério para ter uma política coerente de desenvolvimento da agricultura, tendo em vista que seu papel principal é o de produzir alimentos para as massas de consumidores urbanos e para as exportações. O desenvolvimento da agricultura ocupará mais a agenda do ministro do que as políticas de curto prazo, ao contrário do que é atualmente.
- ELISEU ALVES é pesquisador e ex-presidente da Embrapa

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