São Paulo - Está sobrando dinheiro para financiar a compra da casa própria na Caixa Econômica Federal. Responsável por boa parte da oferta de crédito imobiliário, o banco oficial emprestou menos de 30% dos recursos que tem para essas linhas de crédito. Até o final de junho, foram usados apenas R$ 2,9 bilhões dos R$ 10,9 bilhões previstos no orçamento deste ano. Restam ainda R$ 8 bilhões para o segundo semestre. No ano passado, já tinham sobrado mais de R$ 2 bilhões.
''A Caixa está experimentando do seu próprio veneno'', diz João Carlos Robusti, presidente do Sindicato da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP). No caso, o veneno seria o excesso de burocracia e exigências para a liberação do crédito. ''Porque um ou outro adquirente ou empresa teve algum problema, a Caixa nivelou tudo por baixo, e todo mundo passou a ser igual'', disse. ''Para se proteger, ela passou a exigir o melhor, mas a média acaba não conseguindo atender a essas exigências.''
A Caixa reconhece a necessidade de facilitar o processo de concessão de crédito e já tomou medidas nessa direção. ''Estamos trabalhando para tornar viável a liberação da totalidade dos recursos previstos no orçamento deste ano'', afirma Anecir Scherre, consultor-técnico da vice-presidência de Deesenvolvimento Urbano da Caixa.
Mudanças As novidades incluem a simplificação das entrevistas de crédito, feitas para avaliar o perfil do mutuário, em que foram mantidas apenas perguntas sobre dados que não precisam ser comprovados. Antes, o interessado tinha que ir a uma agência da Caixa, preencher algumas fichas e ficar esperando durante dias para saber se o empréstimo havia sido autorizado. Agora, a resposta é imediata.
Outra mudança é referente a candidato cujo nome está incluído como inadimplente nos serviços de proteção ao crédito, um dos motivos para não ter o financiamento aprovado. Agora, é possível receber a aprovação condicional nesses casos. O crédito é pré-aprovado, mas o dinheiro só é liberado quando o cliente quitar as dívidas e comprovar que à Caixa que resolveu as pendências.
Na avaliação de João Crestana, diretor de incorporação do Sindicato da Habitação (Secovi) de São Paulo, há outros problemas, além do excesso de burocracia: ''O bolso do mutuário está curto para o tamanho da prestação da casa própria'', disse. Segundo ele, o valor da prestação acaba sendo esticado pelos juros elevados e a cobrança de algumas taxas, consideradas altas, como o seguro, que são embutidos no pagamento das mensalidades. ''A redução dos juros tem de ser uma meta constante'', defendeu.
Segundo o diretor do Secovi, não é por obra do acaso que o crédito imobiliário na Espanha, só para citar um exemplo, representa 50% do Produto Interno Bruto (PIB). No Brasil, essa proporção não chega a 2%. ''Diminuindo os juros, o prazo de pagamento poder ser aumentado, diminuindo o valor da prestação.''
O vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel Ribeiro de Oliveira, diz que a demanda está fraca por um conjunto de fatores, que inclui o receio do consumidor em assumir um financiamento num período de incertezas sobre a economia.

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