Benê Bianchi
De Londrina
Até bem pouco tempo, analistas de investimentos das empresas de alta tecnologia afirmavam que a Internet era o único porto seguro para investimentos. A semana terminou mostrando que a história não é bem assim e reafirmando a máxima de que numa economia globalizada não existem questões – ou crises – individualizadas, como analisa o economista londrinense João Rezende, em entrevista à Folha. ‘‘Os mesmos investidores da economia tradicional também investem em papéis da economia tecnológica’’, diz ele.
A chamada ‘nova economia’ atravessou a pior crise de sua história na última semana. O principal índice do mercado eletrônico, o Nasdaq, registrou queda de 13,5%. A ebulição começou com a notícia de que a Justiça norte-americana havia declarado a Microsoft culpada por práticas anticompetitivas e predatórias para manter seu monopólio. As sanções a serem impostas à megaempresa trazem incertezas ao mercado. Mas há os analistas que acham que a condenação foi apenas um pontapé inicial para um necessário ajuste de mercado.
‘‘As empresas de tecnologia estão surgindo rapidamente. Há dois ou três anos, a maioria das que hoje tem patrimônio acima de US$ 50 bilhões não existiam’’, comenta Rezende. Os valores pelos quais são cotadas na bolsa são ‘virtuais’, ou seja, valem mais pela perspectiva que apresentam do que pelo que possuem de valor real.’’ No mercado de ações, a valorização das empresas, cita Rezende, chega a ser quatro ou cinco vezes superior ao valor real (patrimônio líquido) da empresa.
Antes da decisão do juiz americano Thomas Jackson, com relação à Microsoft, a empresa de Bill Gates estava cotada em US$ 572 bilhões; e a Cisco (que comercializa equipamentos para a rede), em US$ 578 bilhões, só para citar alguns exemplos. ‘‘São valores superiores ao PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, que é de US$ 555 bilhões’’, atesta.
‘‘A economia virtual nada mais é do que a globalização impetrada no mercado de primeiro mundo, por meio de criação de empresas com alto poder econômico e monopolizadoras de serviços’’, define o consultor da Afiplan – Assessoria Financeira e Planejamento, Paulo Afonso Rodrigues.
Para ele, o mercado virtual representa um risco bem superior ao tradicional. ‘‘Quando operamos numa bolsa comum (tradicional) de nosso mercado temos o conhecimento do ramo em que opera cada empresa. Analisando sua atividade, condições econômicas, financeiras e perspectivas mercadológicas arriscamos, comprando suas ações. Muitas vezes conhecemos as raízes das empresas, seus administradores e diretores, e mesmo assim é um mercado de risco. Como ficam as empresas que não acompanhamos passo a passo sua movimentação, trabalhando sob expectativas?’’
Embora o Nasdaq seja um índice norte-americano (leia ao lado), as bolsas nacionais não passaram ilesas pelo sobe e desce registrado na última semana. E a economia brasileira também não passaria imune por uma grande crise nas empresas de alta tecnologia que operam na Nasdaq. Segundo Rezende, o mercado doméstico poderia ser seriamente abalado sob duas perspectivas: primeiro, nas expectativas de crescimento das empresas de alta tecnologia brasileiras e das multinacionais que atuam no País. Numa visão mais macro, poderia haver prejuízo às privatizações do setor elétrico e à consolidação do setor de telefonia, em razão do enxugamento de recursos disponíveis para investimento.
‘‘É óbvio que é um processo que só ocorrerá se a queda chegar um dia a ser mais acentuada, porque os mesmo recursos que circulam no Nasdaq poderiam ser usados nas privatizações das empresas estatais brasileiras’’, comenta. O economista ainda salienta que os efeitos de uma crise numa economia globalizada é dominó e exemplifica: ‘‘O mesmo fundo de pensão americano que compra uma ação da Microsoft é também acionista de um grande banco internacional, que também é parceiro de processos de privatizações e aberturas de novos capitais’’.Analistas londrinenses dizem que globalização não permite mais que crises sejam individualizadas
Arquivo Folha‘NO ESCURO’O consultor Paulo Afonso Rodrigues observa que o mercado virtual oferece maior risco do que o tradicional porque exige do investidor a tomada de decisões com poucos conhecimentos a respeito das empresas em que aposta o seu dinheiro

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