Sob o temor do desemprego e juros altos
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terça-feira, 16 de setembro de 2008
Andréa Bertoldi<br> Equipe da Folha 
Curitiba - A crise financeira que afeta os Estados Unidos deve demorar de um a dois anos para se dissipar, o que deve provocar uma recessão mundial. Caso o arrocho fique mais concentrado no mercado norte-americano e na Europa, os países emergentes como China, Índia e Brasil que vendem produtos para os americanos, vão ter desaceleração no ritmo de crescimento com a redução das vendas.
Essa é a avaliação de especialistas consultados pela Folha sobre os reflexos da turbulência americana. Para os brasileiros, a crise pode trazer aumento dos juros, redução de investimentos por parte das empresas e desemprego. A dica para o consumidor é evitar as compras a prazo e o endividamento.
O coordenador do curso de economia da FAE Business School, Gilmar Mendes Lourenço, disse que, no longo prazo, o preço de algumas commodities tende a cair e, com isso, a rentabilidade das exportações brasileiras tende a declinar.
Ele prevê que o custo do dinheiro no mercado internacional deve ficar mais caro para as empresas brasileiras o que pode fazer as companhias do País ''colocarem o pé no freio'' e adiarem projetos.
''Ainda que a crise seja superada, não se sabe em quanto tempo. Dificilmente, será superada em menos de um ano'', prevê Lourenço. Para ele, o mercado interno vai servir como uma ''válvula de escape''.
Por outro lado, Lourenço lembrou que, hoje, o Brasil sente menos o efeito de crises internacionais do que nas décadas de 80 e 90, porque o País tem fundamentos econômicos mais sólidos. A dívida externa do Brasil é menor do que as reservas internacionais e a inflação de 6,5% ao ano é metade do que em 2002, quando a economia sofreu com o ''risco Lula''. Os juros são 50% menores do que há seis anos, o ritmo de crescimento é três vezes maior que em 2002 e as empresas estão menos endividadas. ''Nem por isso, vamos deixar de sentir os efeitos da crise'', disse.
Ele acredita que o governo federal deve continuar a elevar os juros para conter a inflação, o que vai afetar o consumo a prazo e os investimentos.
O cidadão comum vai ser prejudicado pelo crédito mais caro e também pode sofrer com o temor do desemprego. A alta dos juros pode levar as empresas a reduzirem as atividades e cortarem funcionários. ''Isso vai fazer a população ficar mais cautelosa nas decisões de consumo'', disse.
Nesse momento, a dica dele é que o consumidor evite o endividamento e as compras a prazo. ''O primeiro sintoma da crise vai ser o encarecimento do crédito. A pessoa normalmente se preocupa se a prestação cabe no orçamento e não quanto paga de juros'', destacou.
Indústrias
O coordenador do departamento econômico da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), Maurílio Schmitt, acredita que a crise vai ter um processo de ajuste lento.
Para ele, os setores que fornecem bens e serviços para os Estados Unidos serão afetados, principalmente as indústrias de madeira associadas à produção imobiliária americana e as de móveis. Schmitt lembrou ainda que o Brasil é um grande importador e exportador para a China e que este país deve ser afetado diretamente pela crise norte-americana.
As empresas que realizaram financiamentos internacionais terão mais dificuldades de quitar. Caso existam condições, os empresários podem repassar esse custo dos financiamentos para os preços ao consumidor final, afirma.


