Só 28% dos jovens guardam dinheiro
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quinta-feira, 11 de maio de 2017
Nelson Bortolin<br>Reportagem Local 

Gabriel Martins não tinha 10 anos de idade quando fez seu primeiro investimento. Por sugestão do pai e em sociedade com a irmã, comprou uma vaca. O dinheiro veio das mesadas que as duas crianças guardavam. Hoje, aos 27, investe em títulos do governo e pretende diversificar sua carteira com a ajuda de uma planejadora financeira.
Martins faz parte de um grupo minoritário de jovens brasileiros. Segundo pesquisa feita pelo banco digital Neon, somente 28% da chamada "geração millenial", de 18 a 35 anos, guarda dinheiro. Dessa turma, 58% optam pelo produto mais conservador do mercado financeiro, a caderneta de poupança.
A maioria dos 72% que afirmam não poupar alega um motivo óbvio para isso: falta de dinheiro. São 55% nesta condição. Outros 45% dizem que até poderiam guardar algum recurso no final do mês, mas não o fazem por falta de conhecimento técnico ou por não contar com solução adequada de planejamento financeiro. A pesquisa ouviu mil jovens em todo o País.
O responsável pelo marketing do Neon, Alexandre Álvares, diz que os jovens não conseguem se organizar para investimento. "Carecem de um auxílio para se educarem financeiramente", declara. Vendendo o próprio peixe, ele afirma que a geração millenial não vê os bancos tradicionais com bons olhos. "Acham burocrático. Reclamam da filas, das letras miúdas e do uso excessivo de papel", conta.
Álvares afirma que, apesar de considerar o jovem mais bem informado hoje que antigamente, não se surpreendeu com o resultado da pesquisa. "Ela foi feita no Brasil inteiro e ainda temos regiões onde o acesso a informações é bem restrito."

Estímulo
Um aspecto do levantamento que chamou a atenção dele é o fato de os pesquisados afirmarem que poupariam para atingir determinados objetivos. "Existe um espaço para ser trabalhado com esse público", afirma. A pesquisa analisou pontos que estimulariam o jovem a se organizar financeiramente: 29% poupariam para obter uma vida financeira saudável; 18% para não se endividar; 14% para diminuir dívidas atuais; e 10% para comprar algo muito desejado.
Os entrevistados ainda disseram que se planejariam para realizar algum sonho: 47% almejam ter uma casa, 23% gostariam de fazer uma viagem e 20% comprariam um carro.

MUDANÇA DE PADRÃO
Juliana Sitta Queiroz, planejadora financeira certificada pela Associação Brasileira de Planejadores Financeiros (Planejar), acredita que não só as famílias, mas também as escolas deveriam ensinar como lidar com dinheiro. "Na maioria dos casos, os pais também não têm conhecimento e não se prepararam para a tão sonhada independência financeira", afirma.
A planejadora diz que tem conhecido jovens que procuram mudar "este padrão". "São pessoas que buscam melhorar a sua relação com o dinheiro, que procuram alternativas para gastar menos, evitar desperdício e consumir de forma mais consciente", alega.
Ela mesma admite que economizar é um hábito "muito difícil", principalmente quando o objetivo da pessoa está distante. "Mas se os jovens se conscientizassem que dispõem do tempo e dos juros compostos a seu favor, certamente agiriam desde já!", declara.
Ela calculou para a reportagem quanto as pessoas devem economizar mensalmente para ter R$ 1 milhão aos 60 anos e garantir uma velhice bem confortável. Quando a economia começa aos 45 anos de idade, a quantia a ser poupada todos os meses é de R$ 2.789. Se a poupança tiver começado aos 35 anos, o valor cai para R$ 985.
Bom mesmo, é começar bem antes. Um jovem de 25 anos precisa guardar apenas R$ 395 por mês para chegar à terceira idade com R$ 1 milhão. Os cálculos feitos por Juliana levam em conta produtos financeiros que geram renda mensal de 0,7% ao mês.
'Ganhava mesada e guardava para comprar algo que queria'
Depois de comprar a vaca Piruleta em sociedade com a irmã, quando não tinha nem 10 anos, Gabriel Martins tomou gosto por investimentos. "Sempre que nascia um bezerro, a gente vendia e inteirava com dinheiro da mesada para comprar outro animal. Eu era moleque e cheguei a ter 10 vacas", lembra.
Hoje, com 27 anos e atuando como coach, o jovem lembra que, desde muito novo, ouvia os pais falarem sobre a importância de guardar dinheiro. "Ganhava mesada e guardava para comprar algo que queria." Mas a mesada não era de mão beijada. "Precisava realizar tarefas em casa", explica.
Ele acredita que destoa da maioria dos jovens porque sempre recebeu orientação em casa sobre como lidar com dinheiro. "A minha mãe sempre ganhou bem, mas nem por isso me deu tudo que eu queria. Sempre tive que fazer algum esforço para ganhar minha mesada. Ela nunca foi de comprar a roupa mais cara. Tornei-me consciente de que não precisava do mais caro."
Quando fez o primeiro estágio na faculdade, ele guardou 100% dos primeiros seis salários para uma viagem à Europa. "Naquela época, a minha mãe ainda me sustentava." Depois de formado, passou a estabelecer metas mensais de poupança. "Tenho uma meta, por exemplo, de guardar R$ 4 mil. Mas eu já estou tão acostumado a economizar que, às vezes, chego a guardar R$ 5 mil." Só faz algum gasto supérfluo depois da meta batida.
Até há pouco tempo, assim como a maioria dos jovens que conseguem guardar dinheiro, ele usava a caderneta de poupança. "Eu pensava que a alternativa era a Bolsa de Valores, mas, para apostar em ações, eu achava que precisaria estudar muito este mercado."
Há um ano e meio, o jovem passou a investir em títulos públicos (Tesouro Selic e Tesouro IPCA +), sob orientação da planejadora financeira Juliana Sitta. "Aprendi que há outras possibilidades, além da Bolsa", conta. O próximo passo, segundo o coach, é comprar títulos privados. "Já estou estudando alguns CDBs (Certificados de Depósito Bancário) e LCAs (Letras de Crédito do Agronegócio)."
CONSUMO
Gabriel Martins também gosta de gastar. Como a maioria dos jovens, até consome roupa de marca, mas jamais compra algo cujo preço não se justifica. "Tenho amigos que sonham em ter uma BMW daqui a um ano. Nem meu pai tem uma BMW porque tem outras prioridades. Não cogito gastar com um carro muito caro que não me traz retorno", afirma.
Ele prefere gastar com aquilo que considera importante, como viagens. "Invisto também para o futuro. Para ter uma velhice confortável." Mas admite que também poupa pelo simples prazer de poupar. "Gosto de ver o dinheiro acumulando. Dá prazer ver que minha conta aumentou." (N.B.)


