Siqueira Campos O piloto de motocross Flávio Roberto Bonilha, o Beto, de 29 anos, almoça na churrascaria do posto de gasolina à beira da estrada. De jeans e camiseta vermelha, nada o distingue dos outros clientes, moradores da cidade de Siqueira Campos (PR) e caminhoneiros de passagem. Beto, seus irmãos Leodir, 50, e Altair, 49, mantêm uma rotina comum a da maioria dos habitantes da cidade. Porém, os irmãos Bonilha comandam a Tork, a maior indústria de peças e acessórios para motocicletas do Brasil, fabricante de quase 1.900 itens diferentes, e produzindo 9,6 milhões de unidades por ano, com 700 funcionários. O faturamento eles não dizem, mas segundo uma conceituada fonte da cidade, a receita líquida atinge R$ 500 mil mensais.
Os irmãos Bonilha e a Tork são, talvez, o exemplo mais impressionante do boom industrial de Siqueira Campos, cidade do norte do Paraná administrada desde 1989 pelo mesmo grupo, que pôs em prática uma política ultra-agressiva de atração de investimentos. A cidade fica numa região relativamente pobre do Paraná, no chamado ''ramal da fome'', perto da divisa com São Paulo, com raízes cafeeiras e economia agrícola, onde estão alguns dos municípios de menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Estado.
Com a industrialização recente, Siqueira Campos exibe hoje impressionantes sinais de prosperidade, entre os quais uma das mais chamativas é a gratuidade do sistema municipal de transporte por ônibus. A cidade, que chegou a ter mais de 20 mil habitantes há algumas décadas, caiu para 13 mil no auge da crise do café, mas voltou a crescer: no Censo de 2000, registrou 17 mil, e as autoridades municipais estimam que já tenha voltado a 20 mil, pelos números de matrículas escolares e de uso da rede pública de saúde.
Guerra fiscal Um dos principais cérebros da política industrial da cidade é o de Claudio Chomiski, um engenheiro de 44 anos que está na administração estadual desde 1989, primeiro na Secretaria de Planejamento e, depois, acumulando a de Indústria e Comércio. Para quem cultiva pruridos sobre a guerra fiscal, Siqueira Campos é um microcaso perturbador, como fica claro numa conversa com Chomiski e o ex-prefeito Dirceu Rodrigues, 58 anos. Rodrigues exerceu 3 mandatos (incluindo o inicial) dos 5 que o seu grupo político conquistou consecutivamente em variados partidos, do PTB ao PMDB. O atual prefeito, Luiz Antonio Liechocki, foi vice de Rodrigues de 2001 a 2004.
Chomiski e Rodrigues não fazem o menor segredo das regalias conferidas a empresários dispostos a investir em Siqueira Campos: cessão do uso de terrenos devidamente terraplenados e de um caro e sofisticado galpão industrial, diferimento de ICMS por quatro anos, isenção de IPTU e ISS por dez anos, execução de obras complementares a empreendimentos, como um sistema de captação e tratamento de efluentes de água para uma lavanderia industrial de jeans etc. As cessões de imóveis são amarradas em contratos prevendo metas de emprego e outras exigências.
''A relação é na base de uma empresa sendo disputada por cem municípios'', diz Rodrigues, principal mentor político da estratégia de atração de investimentos industriais para Siqueira Campos. Ele e Chomiski resumem a troca de interesses entre a Prefeitura e os empresários: a cidade dá o que pode e as empresas trazem empregos e arrecadação.
Os resultados dificultam a vida dos eventuais críticos da política industrial de Siqueira Campos. O fato é que a cidade se industrializa num ritmo fulgurante, os empregos estão sendo criados e a arrecadação decola. Na área industrial, os empregos saltaram de 1,2 mil em 2000 para projetados 3,3 mil em 2005.

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