Em dois meses, dezembro e janeiro, uma espécie de revolução aconteceu no mundo do trabalho. Junto com o número de grevistas - que despencou 66% de janeiro a novembro do ano passado em relação a 1996 -, caíram também tabus, como o princípio da irredutibilidade dos salários e de que em benefícios conquistados não se mexe. Acima de tudo, caiu um paradigma de negociação, segundo o qual empregado não se mete a dar palpite na estratégia da empresa e apenas reivindica salário direto e indireto. E empresário nega, sem dar satisfações sobre seus lucros, perdas, planos ou posição no mercado.
Operários passaram a discutir não reajuste de salários, mas sim redução. Passaram a votar em assembléias não acordos cheios de conquistas, e sim programação de investimento das empresas, seus planos de produtividade e competitividade, suas chances de sobreviver. Tudo com espantosa tranquilidade, tanto assim que o placar das assembléias não dá margem a muita discussão: ‘‘aprovado quase por unanimidade’’, é o anúncio final de sindicalistas que observam os braços levantados de cima de caminhões de som.
Os exemplos desse novo comportamento não são tímidos. Envolvem os mais poderosos sindicatos do País e as duas maiores centrais sindicais. Diante de ameaças de demissões por todos os lados, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Marinho, da Central Única dos Trabalhadores (CUT), comandou uma massa de 23 mil empregados da Volkswagen num movimento bem diferente das históricas greves e manifestações de protesto da categoria. Marinho colocou-os na luta global para atrair investimentos e exigir a produção da nova linha de veículos da marca no Brasil, mais especificamente na velha fábrica de São Bernardo do Campo.
Foi essa a reivindicação principal dos trabalhadores para aceitar redução de sua remumeração, via corte de benefícios, e o fechamento de 4.062 postos de trabalho por meio de voluntariado. Eles queriam que a maior parte do investimento da Volkswagen de R$ 3,5 bilhões, em cinco anos, fosse para o seu local de trabalho. O fato de serem investimentos na temida automação e em adpatação de linhas de montagem contou pouco. O importante era tornar a fábrica viável e assim eles aprovaram todos os pontos do acordo, em assembléia quinta-feira, na qual oposição foi exceção.
Especialistas no mundo do trabalho observaram a movimentação e hoje trabalham com um novo cenário: o que acontecerá diante de tamanha agilidade do movimento sindical e do empresariado para mudar o rumo da história e superar, ao menos um pouco, as próprias origens e valores, na luta para sobreviverem? Segundo alguns, os índices de desemprego podem não ser tão assustadores como eles próprios previram para o primeiro semestre. A crise pode não ser tão profunda. E a flexibilidade nas relações de trabalho, tão defendida pelo governo, pode muito bem chegar sem a chateação de novas leis e regras propostas pelo Ministério do Trabalho, e sim por inciativa da sociedade, em acordos firmados pelos interessados.

mockup