São Paulo - O setor da construção civil gostou do pacote anunciado na semana passada pelo governo Lula. ''Essas medidas não contêm um item sequer que deva ser condenado'', diz, por exemplo, Romeu Chap Chap, presidente do Sindicato da Habitação (Secovi). Nesta entrevista, ele comenta o pacote e fala sobre os desafios para o segmento.
Agência Estado - O governo Lula já baixou onze pacotes imobiliários mas, até agora, o setor não decolou. Por quê?
Romeu Chap Chap - No início da década de 80, o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo chegou a financiar 270 mil unidades por ano. Depois vieram as crises. Nos anos 90, caíram para 50 mil e no começo desta década, para 30 mil unidades. De um ano para cá, já estamos em 80 mil unidades anuais. É pouco, mas estamos crescendo.
Existem R$ 136 bilhões em recursos das cadernetas de poupança para financiamento habitacional. Por que, então, o setor não anda?
Enquanto a prioridade foi combater a inflação, o governo evitava incentivar a construção civil porque entendia que produziria inflação. Com juros lá em cima e recessão, não havia como a construção civil avançar. Os agentes financeiros esfriaram suas operações por várias razões. Primeiro, porque a recessão tirou poder aquisitivo da população. Segundo, por descasamento técnico. Havia uma moeda (a TR) para fazer o financiamento e outra (o IGP-M) para o pagamento da prestação. O IGP-M correu muito acima da TR, o mutuário não aguentou pagar, a inadimplência foi enorme. E, terceiro, pela insegurança judicial, o banco só conseguia retomar o imóvel que deixara de ser pago depois de enorme e prolongada batalha na Justiça.
Qual foi o papel dos juros altos nessa paradeira?
O juro básico chegou a 45% ao ano, foi para a TR, tornou inviável o pagamento da dívida habitacional e a concessão de créditos. A Caixa Econômica Federal já teve inadimplência de 35%. Teve também a quebra da Encol e de um punhado de construtoras. Isso afugentou os bancos da concessão de novos créditos.
O imóvel usado não ficou mais barato do que o novo?
Você hoje encontra imóveis usados por até menos de 50% do preço de imóvel novo equivalente. Vários apartamentos que minha empresa construiu estão à venda, com equipamento de primeira, armários embutidos e tal, mas é complicado reunir todos essas ofertas de venda. Esta é uma grande distorção que estamos tentando superar com melhor comunicação. Você passa na frente de um prédio, vê o mesmo apartamento sendo vendido por várias imobiliárias, isso aniquila a credibilidade de um produto. A solução é a criação de uma rede: você dá opção para a imobiliária vender seu imóvel em 90 dias, esse imóvel vai para uma rede onde os interessados podem escolher o que querem.
Mas não tem aí também o problema do custo operacional alto demais das construtoras?
Se você descontar a inflação, um grande número de imóveis novos está mais barato por metro quadrado de área construída do que há dez anos. E as condições de pagamento também melhoraram. Novos projetos que lançam empreendimentos imobiliários em larga escala, com 500, 600, 700 apartamentos, vêm reduzindo os custos e provocando redução dos preços de lançamento. Algumas construtoras também abriram seu capital; não dependem mais dos bancos e, portanto, têm melhor condição operacional do que antes.
Em que medida o último pacote imobiliário é apenas eleitoral e em que medida ajuda a empurrar a construção civil?
Mesmo com certo componente eleitoral, essas medidas não contêm um item sequer que deva ser condenado. Podemos criticar apenas o que não saiu. Não saiu autorização para financiamento da compra do lote, que é a matéria-prima da casa própria...
Mas um incentivo à compra de lotes não favoreceria a especulação imobiliária?
O Brasil tem um déficit de 7 milhões de moradias. Hoje estamos produzindo coisa de 100 mil por ano, o que não é nada. O loteamento para moradias populares é muito caro e quase não existe. O que existe é loteamento para a classe alta e classe média. Nas classes baixas, o que há é invasão de área e loteamento clandestino...
E o que mais faltou no pacote da semana passada?
Faltaram recursos para financiamento de moradia popular. A faixa da população com renda de até três salários mínimos (até R$ 1.050 ao mês) não tem poder aquisitivo para compra da casa própria. Tem de ser subsidiada. No entanto, faltam recursos orçamentários para isso. Neste ano, as disponibilidades não passam de R$ 1 bilhão, o que é uma gota d’água, mas pode ser o começo.
Para isso, não existe o patrimônio do Fundo de Garantia?
Isso é um absurdo. Não tem dinheiro para habitação popular e o ministro anuncia desvio de recursos do Fundo de Garantia.

mockup