Sindicado alerta sobre crise agrícola
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quinta-feira, 06 de agosto de 1998
Da Redação 
Só a organização dos produtores pode salvar a atividade agrícola de uma crise mais profunda daqui para frente. O governo não transige na sua política de arrocho: não pretende aumentar o crédito, nem reduzir os juros ou intervir no mercado, quando necessário, em favor de preços mais remuneradores.
A conclusão é do presidente do Sindicato Rural de Londrina, o engenheiro agrônomo Edison Mazei Ponti, depois de participar, em Brasília, de reunião com os homens do primeiro escalão, que decidem em nome do governo, como Guilherme Dias, da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Fazenda, e Benedito do Espírito Santo, secretário geral do Ministério da Agricultura.
Propostas como a de aumentar duas vezes o custeio agrícola, redução dos juros e ampliação do prazo do financiamento, não foram aceitas porque o governo não quer assumir sozinho as decisões da política agrícola. O governo, hoje, tem clareza de que está abrindo mão do mando, resume Edison Ponti.
Problema afeta comunidade O Sindicato Rural de Londrina levou sugestões - durante reunião com representantes do governo, dias atrás, na Confederação Nacional da Agricultura - para facilitar a ação do governo, mas constatou que o governo não quer decidir.
As decisões terão de brotar da vontade política de vários setores, como o Legislativo e o próprio governo, mediante manifestação da vontade da sociedade. Daí a importância de fortalecer o projeto Mobilização Sindical, uma bandeira levantada pelo Sindicato Rural de Londrina.
O exemplo europeu Se na União Européia (UE) a agricultura conta com subsídios e crédito à vontade, é porque os governos são pressionados pelos agricultores e respaldados pela sociedade a dar apoio à produção de alimentos. Mas isto só acontece porque a sociedade dos países europeus compreende melhor o papel da agricultura. Lá eles já passaram por crises de abastecimento, por privações, já comeram insetos, mesmo dispondo de poder aquisitivo. E quem passou por isso sabe valorizar a produção.
Segundo Ponti, esta é a leitura que os próprios dirigentes do governo brasileiro fazem ao admitir que a agricultura precisa do respaldo da sociedade para se fortalecer politicamente, aumentando o seu poder de pressão quando necessário. Do contrário, apesar de legítimos, seus anseios são sempre preteridos porque o governo vai atender setores que melhor souberam fazer seu lobby e estão mais fortalecidos politicamente.
Isto explica por que o País impõe taxas de importação sobre automóveis enquanto a produção agrícola nacional é submetida à concorrência com produtos importados fortemente subsidiados nos seus países de origem. Uma concorrência desigual e predatória, na opinião de Ponti.
Quando questionado sobre o tratamento diferenciado que dispensa ao setor de veículos (enquanto a agricultura é penalizada com tributos em cascata, importações sem critério e falta de crédito), os representantes do governo apontam justamente o poder de pressão e representatividade política daqueles setores como principal fator de conquista. Nesta semana, as montadoras conseguiram reduzir o IPI dos carros. Este é apenas mais um exemplo.
Ponti está convencido de que a agricultura precisa conscientizar a sociedade e se fortalecer politicamente. Ele acha também que a agricultura tem que se articular melhor.
O presidente do Sindicato dá um exemplo concreto em cima do que está por acontecer com as próximas safras. O ministro da Agricultura está anunciando meta de 100 milhões de toneladas de grãos no ano 2000. Uma produção dessas, se alcançada, será maior fator de rebaixamento de preços. Quem deve fixar metas de produção tem que ser a própria agricultura, em conjunto com o governo, buscando equilíbrio entre oferta e procura para que o mercado seja bem abastecido sem aviltar preços. Ufanismos como esse da supersafra só têm prejudicado quem produz sem beneficiar o consumo.


