O País destina apenas 28% do necessário em rodovias; volume de recursos precisa triplicar
O País destina apenas 28% do necessário em rodovias; volume de recursos precisa triplicar | Foto: Marcos Zanutto


O ritmo de investimento brasileiro em infraestrutura está abaixo do necessário para apoiar o crescimento econômico global. De acordo com um relatório publicado recentemente pelo GI Hub (Global Infrastructure HubP) do G20, o país investe apenas 56% do necessário para ser excelência entre os países de economias médias.

O relatório analisa as necessidades de investimentos dos 50 países com maiores PIBs (produto interno bruto), em sete setores até 2040. Os países foram divididos em grupos conforme o potencial econômico e o GI Hub comparou os valores aplicados em cada setor. O Brasil ficou no bloco dos Brics (com exceção da Índia) e países da América Latina e alguns da África.

O levantamento revela que o Brasil precisa triplicar os recursos aplicados em rodovias. No ritmo atual, o País destina apenas 28% do necessário para virar uma referência nesse setor. Há necessidade de avançar também nos modais ferroviário (51%), portos (44%) e aeroportos (49%). Mas está próximo da excelência em energia (82%), água e saneamento básico (96%) e telecomunicações (94%).

A taxa atual de investimentos brasileiros em infraestrutura é de US$ 1,500 trilhões de dólares. Caso mantenha o ritmo atual não deve atingir a meta de US$ 2,700 trilhões. Segundo o relatório, o governo aplica apenas 2,67% do PIB nacional em infraestrutura, mas até 2040 esse percentual precisa subir para 4,72%. Os gargalos da infraestrutura e da logística estiveram entre os temas já debatidos pelo EncontrosFolha, realizado pelo Grupo Folha de Comunicação.

Para o secretário executivo do Conselho de Infraestrutura da Fiep (Federação das Indústrias do Paraná), João Arthur Mohr, o relatório serve como um sinal de alerta. Mais de 75% do transporte de carga são feitos por rodovias. Esse índice encarece o custo logístico. Uma empresa de médio porte gasta em torno de 11% do seu faturamento com logística. Esse percentual nos Estados Unidos fica em torno de 7% a 8%.

"Temos espaço para ganhar um ou dois pontos percentuais. Pegando o Paraná como exemplo, o nosso PIB é de R$ 386,9 bilhões, se conseguir reduzir o percentual em 1%, teremos um retorno, que gera uma economia de R$ 3 bilhões que podem ser investidos em obras", avalia o secretário.

Rodovias com pista simples, falta de contornos urbanos e estradas mal conservadas jogam para cima o custo logístico. Na opinião de Mohr, em curto prazo, não são necessárias obras de grande porte, como duplicações, mas sim adequações que facilitem o fluxo e aumentem a velocidade média do transporte.
Mohr enfatiza que a revitalização da malha ferroviária poderá duplicar o volume de carga transportado por esse modal. Hoje, quase 90% do açúcar produzido no Norte e Noroeste do Paraná vai para o Porto de Paranaguá de trem. No entanto, apenas de 30% da soja é transportada por esse modal.

Em paralelo, na visão dele, é necessário fazer obras de ampliação da capacidade das rodovias. Um exemplo, é o trecho da BR-369 entre Londrina e Ourinhos, no interior de São Paulo. "É um trecho de pista simples, mas que se tiver uma terceira faixa a cada 5km já aumenta a velocidade de deslocamento", exemplifica.

INICIATIVA PRIVADA


O economista Demian Castro, professor de economia brasileira do Departamento de Economia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), afirma que o governo precisa rever o modelo de financiamento de obras e fazer parcerias com grupos estrangeiros que estão dispostos a apostar no País.

"Estamos sem saída para investimentos. Nos últimos anos o governo se desaparelhou ao ponto de não ter capacidade para executar os investimentos. A partir de uma política séria é possível fazer parcerias com aqueles que estão investindo em infraestrutura como a China", disse o professor.

A China demonstra um grande apetite pelo setor de energia, por exemplo. Uma empresa russa disputa a ferrovia Norte/Sul, que vai ligar Tocantins e São Paulo e, que em uma fase futura, chegará a Londrina e Maringá. Os quatro aeroportos leiloados no começo do ano pelo governo federal serão administrados por grupos internacionais. "O capital não tem pátria. O Brasil precisa de um nível de investimento que não tem e esse dinheiro tem que vir de algum lugar. É preciso analisar que daqui 30 anos o investimento internacional se reverte para a União", comentou Mohr.

Mas para atrair esse capital estrangeiro, na avaliação dos especialistas, é necessário garantias de segurança jurídica e política e redução das taxas de juros. "O relatório é um sinal de alerta, que precisamos mudar a forma de fazer discurso. É preciso atrair o capital internacional e só teremos isso com segurança jurídica e políticas e taxas de juros baixas", afirmou o secretário da Fiep.

Para o economista, o Brasil não sabe se posicionar no cenário mundial. "Não é só abrir para o capital internacional. Tem que ter capacidade de iniciativa de investimento. Hoje, os atores nacionais que poderiam fazer isso estão comprometidos. É crucial fazer discussões e criar consensos para, quem sabe daqui dois anos, conseguir implantar políticas de Estado e não de governo, pois esses investimentos são questões de longo prazo", frisa Castro.

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