As multinacionais do setor de laticínios, instaladas nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul já estão comprando cerca de 20% da produção leite da região dos Campos Gerais, no Paraná, considerado um centro de referência em qualidade de leite no País. Só a Fleischmann Royal e a Danone já estão comprando um total de 4 milhões de litros/mês. A unidade da Parmalat de Carazinho, no Rio Grande do Sul, está comprando cerca de 1 milhão de litros de leite da região Sudoeste do Paraná.
A qualidade do leite produzido na região é o motivo que está atraindo o interesse das grandes indústrias, justificou Newton Ribas, professor da Universidade Federal do Paraná e diretor da Associação Brasileira de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa. Segundo ele, a valorização da qualidade do leite e a necessidade das indústrias e produtores se adaptarem à nova legislação do setor que vai vigorar em julho de 2002 serão os temas dominantes do II Simpósio Internacional de Qualidade do Leite.
O Simpósio será realizado em Curitiba, entre os dias 5 e 8 de novembro. O tema vai ao encontro à mobilização de entidades paranaenses como Faep, Ocepar, Senar, Sindileite, Associação Brasileira de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa (APCBRH), Secretaria da Agricultura e Ministério da Agricultura que querem colocar o Estado como segundo na produção de leite e o primeiro no ranking da qualidade.
A disputa das multinacionais pelo leite produzido na região dos Campos Gerais está beneficiando o produtor que está recebendo em torno de 33% a mais no preço do leite. Em Carambeí, o produtor está recebendo em média, R$ 0,40 o litro do leite, enquanto nas demais regiões do Estado, o produtor está recebendo em média R$ 0,30 o litro, informou o médico veterinário João Carlos Koeller, do departamento de Economia Rural, da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Deral).
Para Newton Ribas essa disputa revela que as indústrias de laticínios sediadas no Paraná precisam agilizar e modernizar seus sistemas de produção. Isso porque elas precisam se manter competitivas em relação às grandes multinacionais que estão entrando aos poucos comprando o leite diretamente do produtor paranaense. ‘‘O primeiro passo para isso é o pagamento do leite pelo nível de qualidade que apresenta’’, destacou.
Atualmente, as cooperativas Clac, Witmarsum, Batavo, Castrolanda, Arapoti Cativa e Sudcoop, responsáveis por 60% do leite captado no Estado já estão pagando por qualidade, o que obriga o produtor a melhorar o sistema de manejo e sanitário na propriedade. As demais cooperativas e indústrias ainda não se adaptaram porque estão esperando a vigência da nova legislação que vai implantar o Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite, a partir de julho de 2002. ‘‘Ocorre que até lá, elas vão perder espaço no mercado’’, avisou Ribas.
As entidades estão preocupadas em preparar o produtor e a indústria para essa nova realidade. Com a nova legislação, as classificações de leite em A, B e C vendidas ao consumidor serão substituídas por leite cru resfriado, que vai exigir do produtor equipamentos para resfriamento do produto e das indústrias, o transporte a granel e a valorização da qualidade do leite. A meta do Estado a médio e longo prazo é exportar o leite, adianta Ribas.
Segundo ele, o Brasil ainda importa 10% da produção nacional de leite, o equivalente à produção paranaense que é de 1,9 bilhão de litros por ano. O País está produzindo em torno de 20 bilhões de litros por ano e consumindo 22 bilhões de litros. Com o estímulo ao aumento de produção e de qualidade, o País pode passar da condição de importador para exportador, afirma Ribas.