Siderúrgicas aumentam produção e lucros
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sábado, 14 de agosto de 2004
Cleide Silva<br>Agência Estado 
São Paulo - A indústria do aço, base de produção de automóveis, eletroeletrônicos, máquinas, edifícios e inúmeros outros produtos trabalha em ritmo frenético. Em julho, as siderúrgicas bateram recorde mensal de produção, com 2,839 milhões de toneladas de aço bruto, reforçando a previsão de que este será o melhor ano do setor. A maioria opera a plena capacidade, situação que preocupa consumidores do insumo. As usinas anunciaram investimentos de US$ 7,4 bilhões entre 2004 e 2008 para ampliar a produção. Mas tudo isso parece insuficiente para o apetite do mercado.
A Usiminas não aceita mais pedidos até outubro. A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) está com a carteira de encomendas esgotada para os próximos quatro meses. Há duas semanas, a Ford teve de parar a produção de caminhões durante um dia e dispensar os funcionários por falta de peças. O fornecedor de transmissões ficou sem aço. A Volkswagen teve as entregas do insumo paralisadas temporariamente na semana passada e reduziu o ritmo da linha de montagem de carros.
As siderúrgicas vão produzir este ano 32,4 milhões de toneladas de aço, o maior volume já registrado até agora. O problema de abastecimento, explicam, não está na capacidade produtiva. Está na falta de planejamento das indústrias consumidoras, como fabricantes de carros, autopeças e eletroeletrônicos, que foram surpreendidas pelo crescimento inesperado do mercado e ampliaram encomendas de última hora. Também há problemas de negociações de preços, que provocam atrasos de entregas.
''No Brasil, as empresas não fazem planejamento para o longo prazo, ao contrário, por exemplo, da Europa, onde há contratos para fornecimento por um ano ou mais'', diz o presidente da Usiminas, Rinaldo Campos Soares. Já os aumentos de preços ocorridos neste ano, que só para a indústria automobilística chega a 45%, são resultado do ''sistema globalizado, da alta do preço da commodity e das matérias-primas'', justifica o vice-presidente executivo do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), Marco Polo de Mello Lopes.
Lucros - Num ambiente em que vendas domésticas e exportações crescem paralelamente, acompanhadas de significativa elevação de preços internos e externos, as siderúrgicas registraram no primeiro semestre o melhor resultado financeiro entre cerca de 20 atividades econômicas do País, entre as quais telecomunicações e energia. A receita líquida das 21 maiores empresas, incluindo algumas metalúrgicas, aumentou 23,9% ante igual período de 2003, totalizando R$ 29,2 bilhões.
O lucro operacional do setor teve desempenho 46% maior, fechando em R$ 8,3 bilhões. ''É um resultado fabuloso'', comenta o presidente da consultoria Economática, Fernando Exel. O lucro dessas empresas equivale a 14,1% do patrimônio líquido, o que significa que há espaço para endividamentos e, portanto, para captar recursos para novos investimentos.
O aporte de US$ 7,4 bilhões anunciado pelo setor deve elevar a capacidade de produção de 34 para 44 milhões de toneladas/ano somente entre as siderúrgicas já em funcionamento. Segundo Lopes, não estão nessa conta projetos que aguardam aprovação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como a da Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST) e da CSN, que somariam mais 6 milhões de toneladas ao volume nacional.
Projeções futuras e promessas de abastecimento não acalmam as indústrias que estão no meio do furacão. ''O volume de fornecimento tem ficado abaixo das nossas necessidades, ao mesmo tempo em que se verificam fortes pressões em termos de preços e prazos'', reclama a direção da Eletros, entidade que representa fabricantes de linha branca e eletroportáteis. ''Há pressões de custos e risco de desabastecimento no momento em que a indústria eletroeletrônica tenta recuperar suas vendas.''
Se o ritmo atual de crescimento da indústria automobilística prevalecer, vai faltar aço no mercado, prevê o dirigente do Sindicato Nacional dos Fabricantes de Autopeças (Sindipeças), Nelson Ferreira. ''As siderúrgicas sempre se caracterizaram por aumentar preços sem negociar antes'', acrescenta. Segundo ele, as montadoras - que também projetam produção recorde de 2,1 milhões de veículos este ano - não aceitam repassar os custos desses reajustes e o setor fica travado.


