Setores empresarial e produtivo aguardam redução da taxa Selic
Indicadores favoráveis divulgados nos últimos dias justificam corte nos juros e a expectativa é de, pelo menos, 0,25%, dizem entidades
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terça-feira, 01 de agosto de 2023
Indicadores favoráveis divulgados nos últimos dias justificam corte nos juros e a expectativa é de, pelo menos, 0,25%, dizem entidades
Simoni Saris - Grupo Folha
O mês de agosto começa com grandes expectativas em torno da
reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, que acontece
nesta terça-feira (1) e quarta-feira (2) para definir a taxa de juros do país.
Com o intuito de conter a inflação, a Selic vem sendo mantida desde agosto de
2022 em 13,75%, mas a aposta dos especialistas é de que comece a cair a partir
deste mês em razão de um ambiente econômico mais estável, puxada por indicadores
que apontam deflação em vários setores. Em um cenário mais conservador, a
aposta é pela redução de 0,25%, mas os mais otimistas acreditam que a queda
possa chegar a 0,5%, iniciando um ciclo de cortes que até o final do ano deverá
levar os juros a 12%.
Desde o início de 2023, quando assumiu a presidência, Luiz
Inácio Lula da Silva tem feito críticas constantes à política de juros adotada
pelo BC, estendendo-as ao presidente da instituição, Roberto Campos Neto.
Segundo Lula, a Selic a 13,75%, uma das taxas mais altas do mundo, é hoje o
principal entrave ao crescimento econômico do país porque inibe os investimentos.
A partir desta reunião, o Copom tem entre seus diretores os dois primeiros nomes indicados pelo governo Lula, Gabriel Galípolo, de Política Monetária, e Ailton
Aquino, de Fiscalização.
Na semana passada, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad,
afirmou que “o caminho está pavimentado” para uma diminuição da Selic,
referindo-se a uma série de fatores que mostram um momento favorável na
economia, como queda no desemprego, índices como o IGP-M e o IPCA-15 apontando
para deflação, e elevação da nota do Brasil por agências internacionais de
classificação de risco. “Existe muito espaço para um corte razoável”, declarou
Haddad. “Estamos muito distantes do que o BC chama de juro neutro, que é
inferior a 5%. Estamos com o dobro do juro neutro. Então, há um espaço generoso
para aproveitar."
A preocupação do governo, expôs o ministro, é com a
desaceleração. “A receita não está correspondendo. Temos que retomar a economia.”
Alinhadas à percepção do governo federal, entidades representativas
dos setores produtivo e empresarial do Paraná não veem impeditivo para
a redução da Selic e aguardam para esta quarta-feira o anúncio do corte nos
juros.
Coordenador de Assessoria Econômica e de Crédito da Fiep
(Federação das Indústrias do Estado do Paraná), Marcelo Alves destacou a importância
da taxa elevada da Selic na busca pela estabilidade econômica brasileira, visto
que um ambiente instável deteriora a economia e torna-se prejudicial para a
atividade produtiva. Embora de imediato os juros altos tenham o efeito de
segurar os investimentos, a longo prazo ele se reverte em um momento mais
auspicioso para a economia.
Mas o lado negativo da manutenção prolongada dos juros em um
patamar restritivo é o aumento do custo do dinheiro e a retração do consumo, o
que leva as indústrias a adiarem investimentos em máquinas e equipamentos.
Após 12 meses perto dos 14%, afirmou Alves, a taxa de juros
cumpriu o seu papel e com a economia estabilizada, o ambiente torna-se propício
para uma redução. “A economia está mais segura, mais estável e controlada, o
governo está apontando soluções positivas para o Estado, com uma nova regra
fiscal, reforma tributária, reforma administrativa, mais recursos para
investimentos. Com essa expectativa positiva, entende-se que é hora de baixar os
juros.”
O presidente da Faciap (Federação das Associações Comerciais
e Empresariais do Estado do Paraná), Fernando Moraes, acompanha com atenção a
movimentação do Copom nestes dois dias e acredita em uma redução de 0,25%, “por
cautela”. Ele avalia que não existem justificativas, neste momento, para manter
os atuais 13,75%. “Os momentos bons que o governo está passando, com a reforma
tributária, por mais que não esteja tão clara, a questão do arcabouço fiscal,
ele sendo aprovado, trazem uma expectativa melhor para os rumos do país”, disse ele. “Os juros ficam altos para segurar a inflação, com deflação, deve
haver redução e, com a queda dos juros, o ânimo dos empresários vai ser maior.”
O consultor da Fecomércio-PR, Maurílio Schmitt, considera a atual Selic um "remédio" que está fazendo efeito, visto que a inflação cede e a moeda segue preservando suas características de bem público. "A anunciada redução da taxa de juros é alvissareira e traz consigo a esperança de retomada de negócios, pois juros menores prenunciam aumento na propensão de consumo das pessoas que, circularmente, promove expansão da capacidade de oferta da economia a menores custos operacionais."
Para o comércio londrinense, o reflexo dos juros elevados
foi a queda no consumo. Com medo do endividamento, os consumidores evitam
empréstimos, financiamentos e tomadas de crédito e a perda do poder de compra leva
muita gente a adiar a aquisição de bens, levando à estagnação do setor
varejista.
Do ponto de vista dos lojistas, houve a corrosão do capital de
giro ao mesmo tempo em que encareceu os recursos oferecidos pelas instituições
financeiras. “O empresário fica em uma queda de braço. Perde capital de giro,
perde de vender mais porque o consumo retraiu”, observou o presidente da Acil
(Associação Comercial e Industrial de Londrina), Angelo Pamplona. Baixar a taxa
de juros neste momento, afirmou ele, seria sinalizar ao mercado o início de um
movimento de queda, o que traria um alento para o setor empresarial.
Além de estimular o consumo e novos investimentos no setor
produtivo, a redução da Selic seria uma sinalização positiva para os agentes
econômicos de que a economia está sob controle, sem riscos de instabilidade
inflacionária e desequilíbrio econômico, destacou Alves. “O BC, quando toma uma
decisão desse tipo, está olhando para daqui a seis meses, que é o tempo que a
ação tende a fazer efeito. Mas, obviamente, a mudança sinaliza imediatamente para
a economia uma mudança.”
Se os aspectos econômicos favoráveis foram mantidos, disse o
coordenador de Assessoria Econômica da Fiep, a tendência é que se inicie um
movimento de corte gradual de juros, atendendo às expectativas dos agentes de
mercado. “(A redução dos juros) é importante não só para a economia, mas para o
setor produtivo porque reduz o custo do dinheiro. Outro detalhe importante é
que o corte interessa o governo para não aumentar a dívida interna. Quanto
maior a Selic, mais cara a taxa de juros paga pelos títulos do governo”,
explicou Alves.(Com Agência Brasil)