Arquivo FolhaFinanciamento difícilRoberto Chaddad, da Abravest: ‘‘Os bancos chegam a esconder a existência de linhas de crédito porque consideram os juros e o spread muito baixos’’Uma linha de crédito do BNDES semelhante à que existe para máquinas e equipamentos, é a principal reivindicação que a indústria têxtil levará ao governo na reunião setorial que acontecerá em março, com o Ministério da Indústria e do Comércio.
Tanto a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil) como a Abravest (Associação Brasileira do Vestuário) encaminharam documentos com sugestões ao governo na semana passada.
As sugestões da Abravest estão centradas na redução do custo do crédito, especialmente para as pequenas e médias confecções. Fazendo coro com as demais, a Unit (União Nacional das Indústrias de Tecelagem de Moda), pede uma política específica para o setor têxtil e de confecções.
O setor vem sofrendo dramáticas mudanças com a abertura da economia, falta de controle nas importações, de agressividade nas exportações e de igualdade de condições para competir.
No documento que enviou ao governo, a Abit informa que de 1990 a 1996 foram fechadas 1.238 empresas. Do total de 4.938, elas se reduziram a 3.700. Neste período, o número de empregos caiu de 2,13 milhões para 1,53 milhão, com a perda de 606,1 mil postos.
A situação repercutiu na balança comercial têxtil, superavitária até 1993. Em 1995 houve um déficit de US$ 845 milhões, e ano passado, de US$ 1,1 bilhão, correspondente a 20% do déficit da balança comercial brasileira.
Enquanto as exportações têm-se mantido na década em torno de US$ 1,4 bilhão, caindo para US$ 1,2 bilhão ano passado, as importações vêm dando saltos sucessivos. De um patamar em torno de US$ 500 milhões no início da década, elas subiram em 1994 para US$ 1,32 bilhão; em 1995, para US$ 2,28 bilhões e em 1996, para US$ 2,3 bilhões.
Salvação‘‘Exportar mais é a salvação’’, proclama Luiz Américo de Medeiros, presidente da Abit. Ele acredita que se os exportadores tiverem uma linha de financiamento, as vendas externas podem subir rapidamente para US$ 2 bilhões. ‘‘Existe mercado e a qualidade de nossos produtos é ótima’’, assegura.
Medeiros atribui as dificuldades do setor a fatores internos (custo Brasil) e falta de financiamento às exportações. Quem sobreviveu à abertura - diz - se modernizou e é competitivo. ‘‘Mas só isto não basta’’, aponta.
‘‘Os coreanos exportam com prazo de 180 dias e juros de 3%. Nós temos de cobrar juros de 3% ao mês. Esta é a principal diferença’’, diz. ‘‘O problema não é do setor, mas do País, que tem condições desiguais.’’
Por conta destas dificuldades ou de falta de agressividade do exportador brasileiro, o País sequer está vendendo dentro das cotas a que tem direito para os países do Primeiro Mundo.
Estão abaixo das cotas exportações de fios de algodão, tecidos sintéticos e calças para os países da Europa e de tecidos para camisas, saias, estampas e suéteres para os EUA. Já as cotas de camisetas de malha, tecidos tintos de algodão e linha de cama, mesa e banho são bem aproveitadas.
Ano passado foram instituídas cotas para importar. A dificuldade, segundo Medeiros, é que elas foram estabelecidas dentro das regras do comércio internacional, pela média dos 12 últimos meses, o que resultou numa quantidade muito alta.
A falta de controle de preços é outro aspecto apontado por David Azrak, vice-presidente da Unit. ‘‘A maior parte do problema está sendo causado pelas confecções, que têm entrado no País de forma livre’’, assinala. ‘‘Com isto, toda a cadeia produtiva sofre prejuízos.’’
Como não há padrão de valores, estas importações estariam entrando ‘‘a qualquer preço’’, subfaturadas, vindas principalmente do Oriente. Mas o próprio governo - diz Azrak - está tentando estabelecer uma referência de preços, agora que o controle das importações está informatizado, através do Siscomex.
CréditoRoberto Chaddad, presidente da Abravest, não reclama da abertura, até porque seu setor foi um dos que mais se empenharam para que ela acontecesse, o que trouxe o barateamento de sua matéria-prima, os tecidos. Redução do custo de crédito para as confecções é, neste momento, sua principal bandeira.
No documento ao governo, a Abravest pede linhas de R$ 20 mil a R$ 300 mil, repassadas pelo BNDES a bancos oficiais. Chaddad identifica duas situações difíceis no modelo atual: os créditos são muito altos, acima de R$ 3 milhões. Além disto, são repassados por bancos privados, que teriam pouco interesse.
‘‘Os bancos chegam a esconder a existência das linhas porque consideram os juros e a taxa de ‘‘spread’’ muito baixos’’, critica. Os juros são de 1,6% ao mês e a taxa, de 2% a 4%.
A Abravest pede ainda que as próprias máquinas adquiridas sirvam de garantia do empréstimo, junto com a marca da empresa. ‘‘Marcas famosas têm um valor que não está sendo considerado nestas operações’’, observa.
Para fugir de outro problema com custo de dinheiro - o financiamento do fabricante ao lojista - a Abravest também recomenda a seus associados adquirirem ou alugarem seu próprio ponto-de-venda. ‘‘Esta pode ser a saída para a pequena confecção continuar a existindo’’, diz.
No médio prazo, a sobrevivência de todos estaria condicionada ao barateamento do custo do dinheiro, o que só ocorrerá quando o Estado, através das reformas, diminuir sua necessidade de financiamento e, em consequência, os altos juros que paga por seus títulos, enfatiza Chaddad.

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