Setor produtivo do Paraná reage com cautela a reviravoltas no tarifaço americano
Entidades alertam para incertezas com a nova tarifa global; cenário inclui discussão sobre possíveis reembolsos bilionários nos Estados Unidos
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sábado, 28 de fevereiro de 2026
Entidades alertam para incertezas com a nova tarifa global; cenário inclui discussão sobre possíveis reembolsos bilionários nos Estados Unidos

A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que anulou parte das tarifas globais impostas pelo presidente Donald Trump gerou reação cautelosa entre entidades do setor produtivo do Paraná. Embora o entendimento da Corte represente um freio institucional às medidas unilaterais, a manutenção e ampliação de novas tarifas mantém o cenário de pressão sobre exportadores.
No ano passado, as exportações do agronegócio paranaense aos Estados Unidos caíram 25% na comparação com o ano anterior, tanto em volume quanto em valores comercializados.
Em 2024, 821,53 mil toneladas de produtos foram vendidos ao país norte-americano, totalizando US$ 1,013 bilhão. No ano passado, foram exportadas 615,53 mil toneladas de produtos que renderam US$ 760,28 milhões, segundo levantamento realizado pelo Sistema Faep.
No setor florestal, a retração foi de 28% no valor e de 20% no volume exportado aos EUA. O volume caiu de 652,21 mil toneladas de produtos para 521,30 mil toneladas de 2024 para 2025. Em valores, a queda foi de US$ 681,66 milhões para US$ 488,67 milhões no período.
Em percentuais, a retração mais expressiva foi observada no complexo sucroalcoleiro, que baixou 99%, saindo de 65,98 mil toneladas em 2024 para 287 toneladas no ano passado. Em valores a queda foi de 98%, passando de US$ 32,7 milhões para US$ 444,6 mil.
Mas nem todo o balanço de exportações do Paraná aos EUA no ano passado foi desfavorável. Alguns itens tiveram maior demanda e maior valorização. O complexo soja teve o melhor resultado, com 522% de aumento sobre o valor e 830% de alta no volume.
As exportações de frutas, incluindo nozes e castanhas, cresceram 244% no valor e 160% no volume.
A Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) afirmou, em nota, que a decisão traz “um elemento de moderação importante ao ambiente comercial internacional”, ao restabelecer limites legais para a adoção de sobretaxas. A entidade ressaltou, porém, que a elevação posterior da tarifa global para até 15% “mantém um cenário de pressão sobre o comércio exterior”.
Segundo a Fiep, setores estratégicos da indústria paranaense podem ser afetados. “O Paraná possui forte presença nos Estados Unidos em setores como alimentos processados, madeira, máquinas e equipamentos e componentes automotivos, que mantêm relação estratégica com aquele mercado”, destacou a federação. A entidade defende “fortalecimento do diálogo bilateral, previsibilidade regulatória e ampliação de oportunidades de internacionalização” como resposta ao novo contexto.
No segmento florestal, a Apre Florestas (Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal) avaliou positivamente o entendimento da Suprema Corte, que decidiu por 6 votos a 3 que parte das tarifas excedia a autoridade executiva ao se basear na IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional).
O presidente da entidade, Fabio Brun, afirmou que o resultado “abre espaço para que o governo americano reveja as tarifas impostas aos produtos brasileiros, em especial os do setor florestal”. Ele ponderou, contudo, que “a cautela é fundamental”, uma vez que os desdobramentos dependerão de novas decisões jurídicas e políticas nos Estados Unidos.
O movimento de “morde e assopra” adotado por Trump traz insegurança nas relações comerciais entre Brasil e EUA, alertou o técnico do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Anderson Sartorelli. “Isso é ruim para as práticas comerciais, os importadores e os exportadores porque não conseguem fazer planejamento a longo prazo. Todos os dias tem uma questão que causa ruídos nas práticas comerciais e o Trump vem fazendo de forma recorrente nos últimos meses.”
A decisão da Suprema Corte norte-americana, avaliou Sartorelli, é importante porque derruba uma sobretaxa imposta sem amparo técnico e econômico e alivia alguns setores, que conseguem ganhar ou retomar a competitividade. Mas algumas mercadorias continuam taxadas em 10%, como produtos da piscicultura e da indústria de madeira e móveis.
No Paraná, o setor mais afetado ainda é o florestal, que tinha nos EUA o seu principal mercado, com produtos feitos sob demanda. Adequar toda a estrutura produtiva conforme as exigências de um novo mercado demanda tempo e tem um custo elevado. Por isso, após o tarifaço, houve demissões e indústrias fecharam.
“O Paraná conseguiu, de maneira geral, encontrar mercados e continuar com as exportações. Em volume de exportações, mantivemos o nível, mas em valores recebidos, não. Recebemos menos ao vendermos para mercados que não pagam tão bem quanto o norte-americano”, destacou o técnico do Sistema Faep.
Um exemplo é a carne bovina. Após o tarifaço anunciado por Trump, no ano passado, o Brasil estreitou o comércio com o México, mas o novo mercado não remunera tão bem os exportadores brasileiros.
Incertezas permanecem
A decisão da Suprema Corte não atinge tarifas setoriais já em vigor, como as aplicadas ao aço e ao setor automotivo, que permanecem válidas.
Para os demais produtos, Trump anunciou rapidamente uma nova tarifa de 10% por um período de até 150 dias, seguida da sinalização de elevação para 15%. O Representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, afirmou que a taxa de 15% “não será aplicada de maneira uniforme” e poderá variar conforme o parceiro comercial.
Segundo informações da agência France Presse, acordos já negociados com países como União Europeia, Japão e Coreia do Sul — que obtiveram redução de 25% para 15% nas tarifas sobre automóveis — devem ser mantidos. Especialistas ouvidos pela agência afirmam que os países continuam negociando isenções específicas e sabem que o governo americano estuda outras bases legais para restabelecer parte das tarifas invalidadas.
Outro ponto sensível é o possível reembolso dos valores já arrecadados. Estima-se que mais de US$ 175 bilhões tenham sido cobrados com base nas medidas agora questionadas. A Suprema Corte não tratou diretamente da devolução, deixando o tema para tribunais inferiores. Importadores já sinalizam ações judiciais para recuperar recursos pagos à alfândega.
Sartorelli vê a busca por ressarcimento como uma opção, mas salientou que esse não é um processo tão simples. “É um enredo bastante complexo para ter o ressarcimento do que ocorreu com a sobretaxa, de agosto para cá. Houve as exportações de fato efetivadas, com 40%, mas e as que deixaram de ser feitas? Para essas, não tem ressarcimento e muitos setores acabaram tendo prejuízo e diminuíram suas receitas”, ponderou.
“É um alívio ter essa redução para apenas 10%, embora a gente trabalhe para zerar a taxação. Mas esse ressarcimento a gente enxerga como bastante difícil. Vai ser uma briga jurídica ferrenha entre os dois países”, completou.
Analistas ouvidos pela AFP avaliam que, embora importadores possam ter caminho mais direto para pedir ressarcimento, é improvável que eventuais devoluções cheguem ao consumidor final, que absorveu parte relevante dos custos adicionais provocados pelas tarifas. (Com informações da France Presse)


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