O setor produtivo paranaense acompanha com cautela, preocupação e expectativa os desdobramentos do anúncio do presidente norte-americano, Donald Trump, de taxar em 50% os produtos importados do Brasil pelos Estados Unidos, a partir de 1º de agosto.

Os produtores do Estado avaliam que o momento é de esgotar todos os canais de negociação antes de decidir por medidas de retaliação, como a aplicação da Lei de Reciprocidade, anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A lei, sancionada em abril deste ano e ainda à espera de regulamentação, permite ao governo federal reagir a países ou blocos econômicos que criarem medidas de restrição às exportações brasileiras.

Técnico do Departamento Técnico e Econômico do Sistema Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná), Anderson Sartorelli disse esperar que o governo federal tenha “pulso firme” nas negociações, mas mantenha a cautela. “Em uma tarifa a ferro e fogo, quem sai perdendo é o Brasil, o elo mais fraco na negociação, mas ao mesmo tempo, o país precisa garantir a soberania ou as condições de definir algumas coisas internas, sem interferências”, avaliou.

A decisão de Trump não é uma novidade. Desde que assumiu a presidência, no início de 2025, os EUA já aumentaram as tarifas de importação impostas a vários países, dentre eles, o Brasil, mas agora, além de uma taxa muito elevada, a medida tem uma motivação política e não apenas técnica, econômica ou comercial, o que gera ainda mais incertezas entre os produtores brasileiros.

EUA são o segundo principal destino das exportações brasileiras

Na balança comercial, os EUA estão em segundo lugar entre os países que mais importam do Brasil, atrás apenas da China. Do total de produtos que saem do país, 15% têm como destino os Estados Unidos. A maior parte desse volume são produtos manufaturados e semimanufaturados.

Em 2024, as vendas externas brasileiras ao EUA somaram US$ 40 bilhões, o mesmo volume acumulado com as importações brasileiras de produtos norte-americanos. Apesar do equilíbrio observado no ano passado, desde 2009 a balança comercial pende mais para os Estados Unidos.

Imagem ilustrativa da imagem Setor produtivo acompanha desdobramentos do tarifaço com cautela
| Foto: José Fernando Ogura/AEN

O Paraná também tem nos EUA o segundo maior importador. Todo o pescado exportado pelo Paraná abastece o mercado norte-americano, por exemplo.

Em todo o ano passado, o Paraná exportou US$ 1,59 bilhão aos EUA, o que representou 6,80% de participação nas vendas do Estado ao exterior, conforme dados da Camex (Câmera de Comércio Exterior). Neste ano, entre janeiro e junho, foram US$ 735 milhões em exportações ao país norte-americano, o que corresponde a 6,61% de todo o montante exportado pelo Estado.

Agroflorestais e café lideram comercialização

Levantamento feito pelo Sistema Faep aponta que entre os produtos do agronegócio paranaense mais comprados pelos EUA, os agroflorestais lideram a lista. Em 2024, foram mais de US$ 681,66 milhões de dólares comercializados. Logo abaixo estão as exportações de café, que somaram US$ 79,87 milhões, e de couros, totalizando US$ 47,31 milhões.

Os números mostram o tamanho do prejuízo que o tarifaço do governo Trump representaria ao Paraná, mas Sartorelli destacou que uma retaliação do governo brasileiro também prejudicaria o setor produtivo, uma vez que aumentaria os custos. “Não é só o agro. O setor industrial também vai sofrer com as tarifas porque importa muita coisa.”

Indústria paranaense ainda avalia impactos

A Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná) informou por meio de nota que ainda avalia os possíveis impactos da medida anunciada por Trump para diferentes segmentos do setor industrial paranaense e aguarda o posicionamento do governo brasileiro. A expectativa é que sejam abertos canais de diálogo efetivos com o intuito de anular a taxação.

“É o modus operandi do Trump, criar essa situação de colocar o prazo e tentar barganhar algumas coisas. Mas nesse caso é mais complicado porque temos os argumentos técnicos e econômicos porque eles têm superávit conosco, ao contrário do que diz Trump”, analisou Sartorelli.

O Sistema Faep segue acompanhando e cobrando do governo formas de minimizar os impactos do tarifaço dos EUA e destacou que não é contra a Lei de Reciprocidade, mas defende que antes de aplicá-la seria adequado buscar a ajuda de organismos internacionais, como a OMC (Organização Mundial do Comércio), e devem também ser esgotadas todas as tentativas de encontrar uma solução diplomática para o problema.

“Nossa posição é seguir acompanhando porque são questões diplomáticas. Apesar da pressão de todos os setores, quem senta para negociar são os governos. Temos que pressionar para que a negociação ocorra”, afirmou Sartorelli.

Na sexta-feira (11), em evento no Mato Grosso do Sul, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, declarou que se Trump insistir no tarifaço, será o fim das relações comerciais entre Brasil e EUA.

SOCIEDADE RURAL

A Sociedade Rural do Paraná (SRP) divulgou nota alertando que a tarifa de 50%, imposta pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, causa impactos imediatos ao agronegócio nacional. E que essa medida representa "um retrocesso nas relações comerciais bilaterais e afeta diretamente a competitividade, os custos de produção e as exportações do setor".

"O setor exportador agropecuário será um dos mais impactados pela medida, com perdas de competitividade e redução de margens nas negociações internacionais. Ao mesmo tempo, todo o setor produtivo rural sentirá os efeitos do cenário cambial instável e do encarecimento de insumos importados, como fertilizantes, sementes e equipamentos, todos fundamentais para a produção agrícola e pecuária. Frente a essa realidade, a SRP defende uma postura indispensável do fortalecimento das tratativas bilaterais com os Estados Unidos, com foco em soluções negociadas e sustentáveis. O momento exige presença ativa e responsável nas mesas de diálogo internacional. Romper canais de negociação ou adotar posturas isolacionistas compromete a estabilidade econômica e os avanços conquistados, impactando diretamente o setor rural e a economia nacional. Os Estados Unidos mantêm um superávit comercial histórico sobre o Brasil, mas o agronegócio brasileiro é peça fundamental na cadeia global de alimentos e merece reconhecimento pelo seu papel estratégico", aponta a nota.

Empresários buscam alternativas e novos mercados

Enquanto esperam uma definição, aqueles empresários brasileiros que se prepararam para situações de instabilidade, como agora, podem prospectar novos mercados ou ampliar os já existentes. CEO da W.Brazil Trader e especialista em comércio exterior, Ricardo Kono acredita que este é o momento de procurar alternativas.

Muitos exportadores correram para enviar por via aérea seus produtos aos EUA e escapar de uma possível taxação. Por via marítima, se o tarifaço se cumprir, não dará tempo. A taxa incide no desembarque.

“As empresas mais ágeis vão pegar essas mercadorias e vão trabalhar pesado para movimentar para outros países. Quem já tem mercado vai diminuir custos, reduzir preços e fazer uma espécie de queima de estoque, vendendo mais. E quem estiver preparado, poderá abrir novos mercados”, afirmou Kono.

Sartorelli também acredita que este pode ser um momento de novas oportunidades para o Brasil e o Paraná. “Questões geopolíticas aceleram acordos e negociações. O acordo com o Mercosul pode abrir novos mercados.”

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