Lideranças do setor sucroalcooleiro definiram na última terça-feira em São Paulo a criação da Brasil Álcool S.A, empresa que vai absorver o excedente da produção de álcool combustível. A intenção é regular a oferta, garantir o abastecimento e recuperar os preços do produto. A empresa vai contar com a participação de 200 dos mais de 250 produtores do Centro-Sul do país, absorvendo de imediato cerca de 1,3 bilhão de litros.
O presidente da Coalizão Nacional dos Produtores de Álcool e Açúcar (Cepal), Ermeto Barea, de Cidade Gaúcha, que faz parte da diretoria da Brasil Álcool, diz que o volume que será integralizado pela empresa, mais os 400 milhões de litros que o governo federal está adquirindo no primeiro semestre, chega próximo ao excedente formado a partir de 1997. A situação dará condições para que o mercado recupere os preços do produto, que segundo os dirigentes do setor despencaram nos últimos dois anos.
Segundo o vice-presidente da Brasil Álcool, João Carlos Ferraz, a meta é aumentar o preço do litro para o produtor de R$ 0,25 para R$ 0,36. Com isso, o setor trocaria o atual prejuízo de R$ 0,03 por litro pelo lucro de R$ 0,06 existente até a safra 97/98. Na sua opinião, a mudança não implicará em alta no preço do álcool na bomba, já que os distribuidores absorveriam a perda. ‘‘Eles vão voltar a trabalhar com as margens que costumavam ter, sem necessidade de repasse’’, disse.
Ferraz também afirma que os R$ 0,36 que devem ser cobrados por litro são inferiores aos R$ 0,41 que remuneravam o setor até a safra 97/98. Isso porque, desde então, o setor reduziu seus custos de R$ 0,35 para R$ 0,30 por litro - ganho repassado ao preço de venda.
A Alcopar denuncia ainda que a redução do preço acabou beneficiando apenas as distribuidoras, já que a queda nos valores não chegou ao consumidor. ‘‘O setor sabe que dificilmente vai conseguir retomar o preço de tabela, mas regulando a oferta espera obter uma remuneração mais compensadora’’, diz Barea. No total o Centro-Sul está moendo 250 milhões de toneladas de cana na atual safra, o equivalente a 83% da produção nacional. A expectativa para a próxima safra é de uma quebra na produção e redução na área plantada, por causa dos preços praticados nos últimos anos.
O estoque será formado gradualmente até agosto. Os primeiros 500 milhões de litros serão lacrados pelos produtores no dia 15. Para participar da Brasil Álcool, as usinas (produtoras de açúcar e álcool) se comprometem em estocar 15% da produção. Já para as destilarias, que só fabricam álcool, a parcela é de 10%.
Em troca, as empresas recebem ações da Brasil Álcool em quantidades proporcionais ao volume estocado. Como garantia de que não venderão o álcool lacrado, são obrigadas a entregar à Brasil Álcool notas promissórias no valor de R$ 0,50 por litro estocado. Segundo Ferraz, para garantir a formação do estoque de 125 bilhões de litros até agosto, as empresas precisarão produzir até lá cerca de 750 milhões de litros, além dos 12,2 bilhões necessários para suprir a demanda. Isso porque, explica, atualmente existem cerca de 550 milhões de litros excedentes no mercado, já descontados a compra de 300 milhões de litros anunciada pela Petrobrás e os cerca de 500 milhões de litros já vendidos.
A Brasil Álcool vai interferir também no mercado de açúcar. A empresa deve absorver pelo menos 1 milhão de toneladas do produto para exportação na próxima safra, reduzindo a pressão de baixa nos preços internacionais.

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