São Paulo - O setor agrícola teme represálias da China, caso o governo resolva impor salvaguardas contra os produtos manufaturados chineses. ''Se precisarem, os chineses vão arrumar um motivo para bloquear de novo nossas exportações de soja'', afirmou ontem Carlo Lovatelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). No ano passado, os chineses devolveram navios com carregamento de soja brasileira contaminada com agrotóxicos. O país já havia suspendido compras de soja brasileira por outros motivos técnicos em anos anteriores.
A China é o terceiro maior comprador de produtos agropecuários do Brasil, só perdendo para a União Européia e os Estados Unidos. O Brasil exporta US$ 3 bilhões em complexo soja para a China ao ano. ''Os chineses não podem abrir mão do nosso fornecimento, mas eles podem nos dar um susto'', diz Lovatelli.
Para Marcos Jank, presidente do Instituto de Estudos do Comércio e de Negociações Internacionais (Ícone), soja, carnes, couro e minério de ferro poderiam ser alvo de possíveis retaliações.
O governo vai publicar, neste mês, dois decretos regulamentando o uso de salvaguardas contra a importação de produtos chineses. As importações de produtos chineses explodiram nos quatro primeiros meses de 2005, com uma alta de 58,3% sobre o mesmo período do ano passado. Os setores de têxteis e vestuário, calçados e instrumentos óticos já estão reunindo documentação para entrar com pedido de investigação.
Na terça-feira, o cônsul econômico e comercial da China em São Paulo, Zhang Jisan, afirmou que a China pode revidar. ''Se o Brasil adotar salvaguardas, a China poderá fazer a mesma coisa'', disse Zhang.
Segundo Daniel Rosen, professor da Universidade Columbia, especializado em China, os chineses não podem revidar na mesma moeda. Pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil e todos os membros estão autorizados a impor salvaguardas específicas contra a China durante um determinado período. Isso faz parte do acordo de 2001 para entrada da China na OMC. A China, em contrapartida, não pode impor salvaguardas contra um único país - segundo as regras multilaterais, os chineses só podem recorrer a salvaguardas contra todos os países.
''Os chineses não podem usar salvaguardas específicas contra o Brasil, pois isso é ilegal, segundo a OMC. Mas eles podem optar por barreiras não-tarifárias'', diz Rosen. ''Eu não ficaria surpreso se os chineses resolvessem comprar mais produtos da Austrália, em vez de comprar do Brasil.''

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