Balanço financeiro da Sercomtel S/A (empresa de economia mista) pertencente a Prefeitura e a Copel divulgado recentemente suscita especulações sobre a venda da operadora na cidade, embora o município esteja impedido de comercializar as ações por causa de um plebiscito realizado em 2001. Em visita à redação da Folha, o presidente da empresa, João Rezende, fala das dificuldades e das perspectivas para 2006 da Sercomtel do ponto de vista gerencial.

Em 2005, a Sercomtel fixa teve lucro de R$ 5 milhões, registrando um faturamento de R$ 219 milhões. Esses números não contemplam o impacto contábil das empresas coligadas. Já os demonstrativos da Sercomtel Celular indicam que a operadora acumulou faturamento total de R$ 63 milhões em 2005 e o lucro de aproximadamente R$ 2 milhões. Levando em conta principalmente o subsídio de R$ 6,5 milhões para a compra de aparelhos móveis, o resultado da Sercomtel Celular apresenta um prejuízo de R$ 4,6 milhões. Contudo, as empresas do Grupo Sercomtel que atuam em telefonia (fixa e celular) e internet faturaram juntas cerca de R$ 300 milhões em 2005, e, apesar do prejuízo das coligadas, o lucro líquido ficou próximo a R$ 600 mil.

De acordo com Rezende, o subsídio nos aparelhos acarreta custos altos para as operadoras, e receita não cresce na mesma proporção. Este tem sido o preço para a empresa se manter competitiva e evitar a perda de participação no mercado. Entretanto, os prejuízos não ocorrem só com a Sercomtel, mas com a Brasil Telecom que teve um prejuízo líquido de R$ 598,6 milhões em 2005; a Claro seguiu no mesmo caminho com um prejuízo operacional de R$ 1,68 bilhão e a Vivo fechou 2005 com prejuízo de R$ 909 milhões. Somente a TIM escapou do ''vermelho'', mas amarga prejuízos históricos de R$ 4,8 bilhões.


Folha de Londrina - Está difícil manter a Sercomtel no mercado?

João Rezende - Temos quatro operadoras concorrentes, então é perfeitamente natural que haja uma diminuição da Sercomtel no mercado. Isso é normal porque estamos num mercado concorrencial. O que está ocasionando o prejuízo não só na Sercomtel Celular, mas também nas outras empresas de telefonia móvel são os subsídios nos aparelhos. A concorrência está sendo pautada em cima dos subsídios ao preço do aparelhos.

Folha - Essa é a principal dificuldade da Sercomtel?

Rezende - Nós compramos aparelhos em menor quantidade, nossa variedade de modelos é inferior e os preços praticados por nós obedece evidentemente uma lógica de mercado para manter o cliente.

Folha - Mas isso vai ser um processo constante?

Rezende - Na Europa não se pratica mais esses subsídios absurdos, porque esta é uma estratégia das empresas para conquistar mercado. É que essas empresas concorrentes têm mais fôlego para sustentar subsídios maiores a mais longo prazo. A Sercomtel também tem a sua competitividade. Nós estamos trabalhando, de dois anos para cá, para buscar uma sinergia entre as empresas fixa, celular e internet. O cliente Sercomtel não vai ser analisado individualmente, mas pelo retorno que ele dá nos três investimentos que ele tem com a Sercomtel. Por outro lado, a empresa também não pode praticar loucura, ou seja, tentar seguir a concorrência de uma maneira desenfreada porque não conseguiríamos bancar os níveis de subsídios.

Folha - Qual a solução para se manter neste mercado tão competitivo?

Rezende - Estamos buscando uma sinergia maior entre as empresas do grupo no sentido de que uma auxilia a outra, ou seja, uma sustenta a outra. Se eu dou subsídio para alguém no celular é porque ele deu um bom retorno para mim na telefonia fixa. Se eu dou um desconto em minutos para uma empresa que tem telefonia fixa é porque ela tem contrato de internet ou ADSL. Então é um processo global. Hoje temos que medir a Sercomtel pelo seu desepenho global, não temos como separar uma empresa da outra, até porque o maior tráfego é o fixo móvel. Não podemos achar que a afetividade que a população de Londrina tem pela Sercomtel seja suficiente para mantê-la no mercado. É importante saber dessas condições, desses desafios e analisar a situação da Sercomtel como grupo sercomtel.


Folha - É dificil para a população entender que uma empresa pioneira em tecnologia digital hoje possa ser vendida?

Rezende - Ser o primeiro não significa que você vai manter todos os clientes na sua base. Um parêntese aqui: se aparecer mais um jornal na cidade, a Folha vai perder assinantes também. Faz parte do jogo de mercado. Por isso, nós hoje, na celular, já estamos com a tecnologia GSM, que é a mais avançada do mundo. Já estamos nos preparando para a terceira geração, que vai exigir mais investimentos. Nós vamos ter que nos manter na vanguarda disso.

Folha - Até que ponto essas mudanças tecnológicas, para acompanhar o mercado, vão precisar de investimentos?

Rezende - Nós temos uma preocupação, as tecnologias que vêm por aí vão precisar de mais investimentos. Estamos investindo R$ 6 milhões em ADSL para melhorar a transmissão de dados. Sempre será um grande desafio, pois somos a empresa que tem a menor carteira de clientes dentro da planta nacional. Nós temos menos de meio por cento do mercado nacional e pouco mais de 40% em Londrina.

Folha - Em 2001 tinha 60% do mercado em Londrina e menor número de assinantes. Hoje diminuiu a participação no mercado, mas cresceu o número assinantes...

Rezende - Sim. Hoje numa mesma casa que tem um telefone fixo, você pode ter quatro celulares. Desde 2000 esse número vem aumentando, devido aos planos pré-pagos, mais gente de baixa renda está tendo acesso aos aparelhos.

Folha - A pergunta das pessoas na rua é como um mercado em franca expansão traz prejuízos para as operadoras?

Rezende - Exatamente porque se gasta muito na aquisição desses aparelhos. Cada cliente tem um valor para cada operadora. Nenhum acionista vai querer que sua empresa dê prejuízo. Os acionistas sempre vão cobrar dos dirigentes da empresa resultados. Acredito que esse canibalismo na disputa por clientes, uma hora vai estagnar. Existiu momentos no mercado no ano passado que uma operadora pagava até R$ 5 mil por um cliente, concedendo programas de bonificação, minutos grátis etc. Nós bancamos mais ou menos 15% da nossa receita anual em subsídios para nos mantermos no mercado, porque acreditamos que no longo prazo essa disputa vai se alterar, o mercado vai se estabilizar.

Folha - Com o mercado estabilizado então não haveria necessidade de vender a Sercomtel?

Rezende - Essa é uma outra questão. Eu acho que os acionistas (governo do Estado e Prefeitura) têm o direito e o dever e a responsabilidade de estar acompanhando o desempenho da empresa, vendo o futuro, analisando a conjuntura porque é um patrimônio importante para a cidade. O grupo arrecada hoje R$ 300 milhões por ano. O acionista tem todo o direito de fazer uma análise e ver qual o melhor caminho para isso. Ou seja, os dois aciniosta têm o direito de acompanhar o desempenho da empresa e ver o encaminhamento que pode se dar.

Folha - Na sua análise, como presidente, qual o melhor encaminhamento que poderia ser dado à Sercomtel neste momento?

Rezende - O nosso encaminhamento como diretor é estar sempre atento a atualização tecnológica. Crescemos em 20% nossa receita de transmissão de dados no ano passado. Temos hoje uma intenert mais estabilizada, com bons investimentos. A diretoria trabalha sempre no sentido de manter a empresa valorizada. Estamos tomando medidas de redução de custo, lançamos um PDI (Plano de Demissão Incentivada) vão sair 100 funcionários (ao todo) até metade do ano. De 2004 até agora já foram 60. Estamos sempre discutindo com outras operadoras parcerias de operação na celular. Pode ser necessário no curto prazo uma operação casada com outra empresa de celular para nos mantermos no mercado. Se lá na frente a estratégia for de se desfazer deste patrimônio que ele continue valorizado.

Folha - Como seria essa parceria com outras operadoras?

Rezende - Estamos estudando a possibilidade de um acordo operacional com outras operadoras, sem evidentemente burlar nenhuma legislação da Anatel, regulamentação do Código da Consumidor. Por enquanto estamos pensando num modelo de acordo operacional.

Folha - Hoje quem é a maior interessada nessa parceria com a Sercomtel

Rezende - Não tem nada ainda neste sentido.

Folha - A carteira de clientes hoje seria o maior atrativo da Sercomtel no caso de venda?

Rezende - A venda não está nem em discussão. Temos 150 mil assinantes na telefonia fixa e 90 mil clientes na celular.

Folha - A Sercomtel Celular teve lucro em anos anteriores a 2005?

Rezende - A Celular sempre teve pequenos lucros. Em 2000 o lucro foi de R$ 2,2 milhões; em 2001, R$ 2,6 milhões; em 2002, R$ 2,7 milhões; em 2003, R$ 4,7 milhões e em 2004, R$ 3 milhões.

Folha - Nesses anos a empresa também precisou subsidiar os aparelhos?

Rezende - Não havia essa grande disputa no mercado por subsídio de aparelho, como houve a partir de 2004. Em 2005 fizemos esta opção: vamos dar subsídios para manter a carteira acima de 40% do mercado. Se não fizéssemos isso, perderíamos clientes e, talvez, aumentaríamos a rentabilidade. Mas esta não é uma decisão fácil, as operadoras estão no mesmo momento.

Folha - A telefonia fixa também passa por dificuldades?

Rezende - A fixa tem tido resultado positivo sempre, só afetado pelo resultado negativo das coligadas. A fixa está atualizada tecnologicamente, temos saltos de qualidade com a ADSL, trabalhamos com clientes corporativos. É evidente que as coligadas dão reflexo negativo para a Sercomtel.

Folha - Como estão as coligadas?

Rezende - A SMTV (filial da Sercomtel que opera TV por assinatura em Maringá) foi colocada em leilão no ano passado e está parado no Judiciário até agora. A Ask! (companhia call center) nós vendemos as ações em Curitiba para sanear as dívidas da Ask! aqui. A Adatel (operadora de TV a cabo em São José-SC e Osasco-SP) nós estamos repassando recursos apenas para manutenção. Existem ações que pedem a integralização de capital contra os sócios atuais na Ask! daqui e de Curitiba. Essas ações somam hoje R$ 16 milhões. Se separarmos a fixa, isoladamente, ela tem tido sempre um bom desempenho e uma boa rentabilidade, acima de 3% na média nos últimos 4 anos.

Folha - Por que não fechar as coligadas?

Rezende - Se eu fechar vem o prejuízo todo para a Sercomtel. A gente não pode se iludir com isso. Se eu fechar a SMTV, primeiro vou enfrentar problemas com 4,5 mil assinantes, como vou indenizá-los, como vou tirá-los da planta. Segundo, é uma concessão da Anatel e ela vai me multar por isso. Terceiro, tem R$ 5 milhões de prejuízos acumulados, que seriam assumidos pela Sercomtel. Hoje teríamos um impacto e R$ 35 milhões no balanço da Sercomtel se fechássemos as coligadas. Então, estamos tentando sanear e vender como foi feito com a Ask! em Curitiba.

Folha - A compra das coligadas foi um investimento errado?

Rezende - Na minha opinião foi um investimento errado no passado, em 1999. A gestão do Belinati (ex-prefeito Antonio Belinati) injetou R$ 50 milhões nessas operações.

Folha - Em 2001 falava-se que o grupo Sercomtel estava avaliado em US$ 300 milhões. Qual a avaliação patrimonial do grupo hoje?

Rezende - Não tenho condições de dizer isso. A Prefeitura nem a Sercomtel fez nenhuma avaliação disso. Primeiro porque falar em valor da empresa é totalmente precipitado e prematuro, não está em questão. Quando for se discutir a avaliação tem que ser contratada uma empresa de credibilidade que vai fazer um trabalho de avaliação. O capital social (patrimônio líquido) da fixa é de R$ 234 milhões e da celular é de R$ 36 milhões, mas não quer dizer que seja o valor de avaliação. Não podemos esquecer da internet que tem hoje uma receita de R$ 8 milhões e deu um lucro de R$ 500 mil no ano passado, é uma empresa importante para nós.

Folha - Está compensando investir (telefonia fixa) em outros municípios?

Rezende - Explorar os municípios é um problema, sobretudo pequenos municípios. Puxar a telefonia convencional por cabo não compensa, então nós temos que escolher os nichos que nos interessa, por exemplo, como o parque moveleiro de Arapongas, onde estamos com fibra óptica e telefonia. No futuro vamos poder usar o VoIP lá também. Essa expansão tem que ser muito cuidadosa, até para não ocorrer o desvio de foco da empresa, que está em Londrina.

Folha - Quando se abriu os caminho para as privatizações das telecomunicações (1995) você acha que a Sercomtel perdeu a oportunidade de se transformar numa empresa regional?

Rezende - Para isso precisaria ter tido investimentos. A opção naquele momento não foi para isto. Eu acredito que se tivesse feito essa expansão sem um estudo mais detalhado de viabilidade, poderia a Sercomtel estar em mais dificuldades ainda. Respeitando todas as cidades, poucas têm condições de ter mais de uma concorrente. No Brasil inteiro hoje nós temos a concorrência da telefonia fixa em apenas em 5% das cidades. Só nos grandes centros urbanos, porque o custo é muito grande para manutenção de rede, telefones públicos, uma série de coisas.

Folha - A Sercomtel fixa não sobreviveria sem a celular?

Rezende - A relação de interdependência é muito grande. Os negócios hoje são tratados como Grupo Sercomtel. Todas as outras empresas têm acopladas a ela uma celular. A Brasil Telecom criou a Celular (GSM); a Telemar criou a OI; a Vivo tem acordo operacional com a Telefônica. A CTBC (Companhia Telefônica Brasil Central) tem celular e fixa, somente a TIM atua isoladamente no Brasil, só com celular.

Folha - Como você avalia o serviço da Sercomtel em relação as outras operadoras?

Rezende - É a operadora que tem menor índice de reclamção da Anatel (número de reclamações por mil assinates); tem os menores números de queixa no Procon; temos sinal em 98% de celular na região urbana de Londrina e 78% na zona rural. O serviço da Sercomtel é compatível com o mercado. O que acontece é que a disputa de mercado nesse momento está se dando por aparelho. Hoje basta trocar o chip do aparelho. É um mercado volátil e nós estamos procurando melhorar no dia a dia. Tivemos um sucesso no plano de recarga, ninguém tem esse plano (plano sob medida iniciando com R$ 2). Estamos lançando produtos constantes para agregar serviço a celular (jogos, acesso à internet, transmissão de dados).

Folha - Quais as perspectivas para 2006? Os números (lucros) vão se repetir?

Rezende - Para 2006, nós achamos que na fixa vamos ter um resultado parecido com 2005. Na celular estamos trabalhando para reduzir os prejuízos. Nossa perspectiva é que alcançamos uma redução de cerca de 40% no primeiro semestre.

mockup