Será o Brasil o próximo a cair?
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de setembro de 1998
Miguel Enesco France Presse 
O Brasil será o próximo a sucumbir na crise financeira? A nona economia do mundo apresenta enormes fragilidades mas também sólidos argumentos para enfrentar a turbulência mundial, que entrou ontem em seu segundo mês. Uma coisa é certa: uma queda do Brasil - 45% do Pib latino-americano - afetaria severamente as demais nações do continente, numa versão talvez mais grave do que a crise mexicana do final de 1994. O Brasil é visto como um país extremamente vulnerável à crise por uma série de fatores. Estes são alguns deles:
1 - Com pouca poupança interna, o Brasil depende muito de capitais externos, agora mais caros e escassos, para financiar seu elevado déficit público (7% do Pib) e de contas-correntes (4%).
2 - O Brasil se financia em parte graças ao seu vasto processo de privatizações. Mas a partir de 99 não haverá o que privatizar.
3 - O Brasil tem, segundo os meios exportadores e financeiros, uma moeda supervalorizada (1 dólar = 1,17 reais) que penaliza suas exportações. Essa moeda forte está sustentada por altas taxas de juros internos, que ao mesmo tempo freiam a atividade econômica interna e disparam o desemprego. O Pib brasileiro crescerá menos de 2% em 1998 (+3% em 1997) e segundo cálculos da JP Morgan terá um crescimento negativo em 1999 (-2%).
4 - Só em agosto, 11 bilhões de dólares deixaram o Brasil.
5 - Os C-Bonds, títulos da dívida externa brasileira no mercado internacional, caíram e seu rendimento deve aumentar. O Brasil paga assim cada vez mais caro para financiar sua dívida externa (de 225 bilhões de dólares).
6 - Os efeitos do panorama internacional sobre a bolsa de São Paulo, a maior da América Latina, foram devastadores: seu principal índice Bovespa despencou quase 40% só em agosto.
Mas, ao mesmo tempo, o Brasil tem alguns bons argumentos para enfrentar a crise:
1 - Há estabilidade política. A crise não coloca em perigo (ainda) a provável reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Se reeleito, haverá mais medidas de rigor fiscal.
2 - As reservas do País são elevadas (69 bilhões de dólares). O Brasil deve receber em 1998 investimentos diretos estrangeiros em torno de US$ 18 bilhões.
3 - Depois de anos de hiperinflação até 1994, a inflação (5% a 6% anual) está sob controle, graças uma moeda nacional forte.
4 - O governo não hesitou em tomar semana passada uma série de medidas para atrair e manter capitais externos no País, embora a curto prazo e especulativos. O objetivo é frear a sangria de capitais.
5 - Como na maioria dos países latino-americanos, o sistema financeiro e bancário está saneado.
Não obstante, a irreal proposta do governo brasileiro para o orçamento de 99, apresentada anteontem, merece estar no deve do Brasil. Ela ignora por completo os efeitos da crise e prevê em 99 um crescimento de 4% do Pib brasileiro. É uma brincadeira, disse o candidato esquerdista à presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, refletindo desta vez o que pensa a maioria dos observadores.


