Pressionado pelo agravamento da crise política e econômica e por uma decisão de juiz – que suspendeu o corte dos salários do funcionalismo –, o Senado argentino deve votar hoje projeto de ajuste fiscal, numa tentativa de acalmar os mercados financeiros antes de sua abertura na segunda-feira.
A votação do projeto havia sido adiada na semana passada para a terça-feira, mas, com o aumento do nível de desconfiança dos investidores e problemas jurídicos para implementar seu plano de déficit zero, o governo iniciou uma ofensiva política ontem para convencer os senadores a antecipar a votação do projeto, aprovado pela Câmara dos Deputados, há uma semana.
O governo procurava contabilizar ontem os votos necessários para aprovar o projeto e aguardava uma posição dos senadores do Partido Justicialista (oposição), que decidiriam a posição a ser tomada em uma reunião com os governadores do partido no final da tarde de ontem.
Os senadores do PJ já haviam anunciado, antes mesmo da reunião, que não votariam a favor do projeto, mas garantiriam o quórum para a votação se houvesse consenso na base do governo. O PJ controla o senado, com 39 das 72 cadeiras.
Com o quórum mínimo de 37 senadores, o governo necessitaria de 19 votos para aprovar o projeto. A União Cívica Radical (UCR), partido do presidente Fernando de la Rúa, tem 20 senadores, mas, até a tarde de ontem, a liderança do partido contabilizava apenas 17 votos assegurados.
Além de querer dar aos mercados uma mostra de apoio político, o governo também precisa da aprovação do projeto por causa de uma decisão de um juiz trabalhista que suspendeu a vigência do decreto presidencial que determinou o corte de 13% nos salários do funcionalismo. Com a aprovação do projeto, novas ações teriam de ser impetradas contra a lei para impedir os cortes.
Para evitar uma eventual mudança no texto do projeto pelo Senado, que obrigaria uma nova votação na Câmara, o governo teria negociado a sua aprovação sem alterações e a discussão posterior do principal ponto de discórdia, o piso a partir do qual serão cortados os salários dos funcionários públicos e as aposentadorias.
A pressa do governo em aprovar seu projeto de ajuste tem o objetivo também de evitar uma fuga em massa de depósitos no sistema financeiro que possa aumentar o risco de colapso. Isso porque entre segunda e terça-feira, os dois últimos dias do mês, vence uma grande quantidade de depósitos de prazo fixo, e o governo teme que eles não sejam renovados se persistir o clima de incerteza.
Segundo os dados do Banco Central, o sistema financeiro argentino perdeu, do início do mês até a quarta-feira (último dado disponível), US$ 6,1 bilhões em depósitos, ou 7,2% do total. Isso significa a saída média de US$ 360 milhões por dia útil. Persistindo esse ritmo, o sistema financeiro chegaria ao final do mês com US$ 7,5 bilhões a menos em depósitos.
A fuga de depósitos em um mês seria a maior desde a crise financeira do México, em 1995, quando o sistema financeiro perdeu 18% de seus depósitos em três meses.

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