Semana decisiva para governo de Duhalde
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sábado, 25 de maio de 2002
Ariel Palacios Agência Estado 
Buenos Aires - Em uma tórrida tarde de um verão no início dos anos 60, uma jovem de maiô florido jogou-se na piscina de um clube na cidade de Lomas de Zamora e fingiu um afogamento. O motivo da encenação era o de atrair a atenção do rapaz que era alvo de seu interesse. O jovem, que para ganhar um dinheiro extra trabalhava nos fins de semana como salva-vidas, pulou rapidamente na água e resgatou a garota. Mais de três décadas depois, o salva-vidas havia mudado de profissão e era o presidente provisório da Argentina. No entanto, a capacidade de salvamento de Eduardo Duhalde havia desvanecido. O país, sob sua administração, continuou afundando. Agora, diante do afogamento generalizado dos argentinos, ameaça deixar o posto.
Se não o apoiarem, que sentido possui em continuar?. Desta forma, direta como sempre, Hilda Chiche de Duhalde, a moça que trinta e cinco anos atrás havia envergado o maiô florido e que agora ostenta o cargo de primeira-dama, afirmou publicamente que seu marido renunciaria ao cargo caso não consiga respaldo para continuar governando.
Na semana passada, depois de voltar da viagem pela Espanha e pela Itália, onde somente recebeu cobranças e nenhum apoio, El Cabezón (O Cabeção), como é conhecido popularmente, encontrou-se com um Congresso Nacional reticente em aprovar as medidas exigidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
Imediatamente, Duhalde convocou as lideranças parlamentares de seu partido, o Justicialista (Peronista) e dois da oposição, a União Cívica Radical (UCR) e da Frepaso, para dar um soco na mesa e afirmar que se a coisa continuar neste ritmo, vou embora. O sonoro soco e frase bombástica não serviram de nada.
Segundo o colunista Roberto Caballero, a ameaça de Duhalde foi inócua como distribuir folhetos do Greenpeace entre os tripulantes de um baleeiro japonês. A consequência foi que na madrugada da sexta-feira, na Câmara de Deputados, foi derrotada a proposta do governo de eliminar a lei de subversão econômica.
Embora o governo ainda conte com a possibilidade de aprovar a lei no Senado na terça-feira que vem, a derrota da sexta-feira foi um golpe em Duhalde que poderia ser o tiro de misericórdia de seu governo.
Por este motivo, o futuro do ex-salva-vidas terá dois dias cruciais pela frente. O primeiro seria na segunda-feira, quando Duhalde terá uma reunião de cúpula com os governadores peronistas em Santa Rosa, a pacata capital da província de La Pampa.
O governo teme que ali reapareça o fantasma de Chapadmalal, uma alusão à reunião nesse balneário argentino, onde em dezembro do ano passado o então presidente Adolfo Rodríguez Saá convocou os governadores para uma grande demonstração pública de respaldo. Dos 24 governadores, somente um compareceu, que foi embora rapidamente. Depois dessa demonstração sem misericórdia de isolamento, Rodríguez Saá renunciou.
Dentro do círculo de assessores de diversos governadores consultados pelo Estado, a intenção da reunião de Santa Rosa seria a de - depois de mostrar os limites do poder do presidente - deixar Duhalde no cargo, pelo menos por mais algum tempo.
Simultaneamente, definiriam a realização de eleições presidenciais, que em vez de setembro de 2003, ocorreriam em algum momento entre dezembro deste ano e março do ano que vem. A data exata varia de acordo com cada governador, dependendo do tempo que considere necessário para organizar sua própria candidatura ou do presidenciável que apóia.
Nesse intervalo, o peronismo - que tudo indica, será o partido de onde sairá o próximo presidente do país - se engalfinhará em lutas internas para ver quem será o candidato. Outra opção, na falta de uma convenção, é que possa apresentar-se uma série ilimitada de sub-legendas.
Os presidenciáveis peronistas são o governador da província de Santa Fe, Carlos Reutemann; o governador da província de Córdoba, José Manuel de la Sota, o governador de Santa Cruz, Néstor Kirchner, e o ex-presidente Adolfo Rodríguez Saá. Um grupo de fiéis escudeiros do ex-presidente Carlos Menem pretendem que El Turco, como é conhecido, possa apresentar-se como candidato. No entanto, segundo a Constituição, Menem teria que esperar até dezembro de 2003, quando se completam quatro anos desde o fim de seu mandato.
O novo presidente eleito, ao contrário de Duhalde, não seria escolhido somente para completar o mandato inacabado do ex-presidente Fernando De la Rúa (1999-2001), mas sim, para iniciar um novo período presidencial de quatro anos.
Em troca desta antecipação das eleições, os governadores assinariam os acordos individuais de ajustes de 60% dos déficits fiscais provinciais, o que desbloquearia parte da assinatura de um novo programa econômico com o FMI.
O segundo dia crucial para Duhalde será na terça-feira, quando o Senado teria que votar a revogação da lei de subversão econômica. Se o resultado for favorável ao governo, o caminho para o acordo com o FMI estará totalmente livre.
Possibilidades - Rosendo Fraga, o principal think tank da Argentina, disse que o país está caminhando na direção de ter um novo governo provisório, que convocará eleições em 90 dias. Segundo Fraga, Duhalde abandonaria o cargo e seria substituído por alguém - possivelmente o presidente do Senado, Juan Carlos Maqueda - que governaria até a posse do novo presidente, que começaria um mandato novo, de quatro anos.
O analista não teme que o presidente provisório fique enfraquecido pela sua condição de temporário: Um presidente de uma nova transição, com certeza teria mais poder que Duhalde. Uma transição de 90 dias é mais fácil que uma de quase dois anos. Além disso, ele está excepcionalmente limitado, já que está em confronto com o Congresso Nacional e a Corte Suprema de Justiça.
O analista político Oscar Raúl Cardoso disse que existiriam duas possibilidades nos próximos dias: A renúncia ou antecipação das eleições presidenciais...isso é algo que está sendo analisado seriamente. No entanto, Cardoso considera que Duhalde tentará ficar no cargo: Ele possui o gosto pelo poder.
Outro especialista da política argentina, Raúl Kollman, considera que Duhalde não controla o peronismo, não controla os governadores, e além disso, a aliança com a UCR está caindo aos pedaços. Duhalde está mal, mas ainda não perdeu totalmente.
Para Carlos Raimundi, deputado da centro-esquerdista Frepaso, a renúncia não é desejável: Seria preferível que completasse o mandato, para estabilizar o processo econômico e social. Mas uma única coisa são os desejos, e outra a realidade objetiva. Duhalde está enfraquecido por causa da falta de apoio internacional. Dentro do país tem carência de aliados. E isto não se deve à supostas conspirações da oposição contra ele. Não. É simplesmente porque ele é torpe, é medíocre.


