Rio de Janeiro As empresas estão entrando no último trimestre do ano, período de maior movimentação econômica, em compasso de espera. Pressionados pela variação do dólar, a indústria e o varejo praticamente paralisaram as negociações envolvendo as encomendas para o Natal.
O fechamento dos pedidos foi adiado para depois das eleições presidenciais, cuja indefinição tem contribuído para aumentar o nervosismo do mercado de câmbio. Segundo o diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Faldini, os empresários perderam a referência por causa da disparada do dólar. ''Todo mundo está com medo de fixar preços por causa da bagunça do câmbio. Se fixar com base na cotação atual, que é irreal, não vai ter consumo. Se fixar um preço muito baixo, pode ter prejuízo.''
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Flexíveis (Abief), Sérgio Haberfeld, conta que os negócios no setor estão parados desde fins de agosto. ''Nem a proximidade do Natal anima os clientes a retomar as compras.''
Segundo ele, as indústrias de alimentos, de produtos de limpeza doméstica e artigos de higiene pessoal, principais consumidores de embalagens flexíveis, estão comprando apenas o necessário para repor as vendas do dia-a-dia. ''Ninguém quer carregar estoques''. Haberfeld, que também preside o Conselho de Administração da Dixie-Toga, considerada a maior empresa de embalagens da América Latina com unidades em Londrina , observa que a experiência mostra que em outros momentos de transição saiu-se bem quem tinha dinheiro em caixa para garantir o giro dos negócios.
O problema, segundo Haberfeld, é que a indústria pode não conseguir atender a um eventual acúmulo de pedidos de última hora para o Natal. A Semp Toshiba, fabricante de eletroeletrônicos, por exemplo, já cortou em mais de 40% a produção 20% em fins de julho e mais 20% agora. Para o presidente do Grupo Semp Toshiba, Afonso Antônio Hennel, há risco de escassez de produtos no fim do ano. Segundo ele, a empresa usa boa parte de componentes importados e resolveu reduzir a produção para diminuir a sua exposição às bruscas oscilações do dólar.
''O mercado não tem condições de absorver os aumentos de 30% que os fabricantes querem repassar para os preços'', diz o diretor administrativo-financeiro da Casas Bahia, Michael Klein. ''Quem deixou de comprar um TV por R$ 400 há alguns meses não vai querer pagar agora R$ 520 pelo mesmo produto.'' Maior rede de varejo de eletroeletrônicos do País, a Bahia manteve a programação de encomendas para o Natal feita há alguns meses. Em compensação, aceita negociar apenas o repasse da inflação para os preços.
Klein observa que o quadro de incertezas também está afastando o consumidor das lojas. ''Estamos percebendo que os clientes estão receosos em assumir dívidas porque não têm garantias de que vão se manter empregados com a transição de governos''.
Na Lojas Cem, as vendas deste mês não estão conseguindo sequer repetir o fraco desempenho de setembro de 2001, que tinha sido o pior período do ano para o comércio, por causa do racionamento energia elétrica e os atentados terroristas nos Estados Unidos. O supervisor-geral da rede, Valdemir Colleone, estima que as vendas deste mês devem fechar com queda de 8% na comparação com igual período do ano passado.
A Lojas Cem resolveu investir em estoques para driblar as pressões por aumento de preços neste período de transição. Atualmente, a empresa tem mercadorias para 60 dias, o dobro do normal. ''Foi uma questão de oportunidade, muita gente deve ter feito o mesmo. Agora, vamos esperar o resultado das eleições para fazer os pedidos do Natal'', diz Colleone.
A redução da produção nas fábricas já foi sentida pelos fornecedores de produtos intermediários. O presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), Merheg Cachum, diz que os pedidos tiveram uma forte redução nas últimas semanas. ''Vamos ter um fim de ano muito difícil. A expectativa do setor é de fechar 2002 com queda de 7% no faturamento na comparação com 2001.''
No caso da indústria química, que praticamente permeia todos os segmentos da economia, o cenário varia de produto para produto. No agronegócio e na indústria moveleira, por exemplo, as vendas de insumos continuam aquecidas. Já o fornecimento para os fabricantes de veículos automotores e para construção civil se retraiu.
''O cenário é muito incerto. Não temos uma idéia muito clara de como será o fim do ano'', diz o vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Guilherme Duque Estrada. No mês passado, as vendas do setor caíram 2,98% em relação a julho. ''Ninguém está muito otimista.''

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