SEM RUMO Dólar sem limites paralisa negócios e compromete Natal
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de setembro de 2002
Agência Estado 
Rio de Janeiro As empresas estão entrando no último trimestre do ano, período de maior movimentação econômica, em compasso de espera. Pressionados pela variação do dólar, a indústria e o varejo praticamente paralisaram as negociações envolvendo as encomendas para o Natal.
O fechamento dos pedidos foi adiado para depois das eleições presidenciais, cuja indefinição tem contribuído para aumentar o nervosismo do mercado de câmbio. Segundo o diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Faldini, os empresários perderam a referência por causa da disparada do dólar. ''Todo mundo está com medo de fixar preços por causa da bagunça do câmbio. Se fixar com base na cotação atual, que é irreal, não vai ter consumo. Se fixar um preço muito baixo, pode ter prejuízo.''
O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Flexíveis (Abief), Sérgio Haberfeld, conta que os negócios no setor estão parados desde fins de agosto. ''Nem a proximidade do Natal anima os clientes a retomar as compras.''
Segundo ele, as indústrias de alimentos, de produtos de limpeza doméstica e artigos de higiene pessoal, principais consumidores de embalagens flexíveis, estão comprando apenas o necessário para repor as vendas do dia-a-dia. ''Ninguém quer carregar estoques''. Haberfeld, que também preside o Conselho de Administração da Dixie-Toga, considerada a maior empresa de embalagens da América Latina com unidades em Londrina , observa que a experiência mostra que em outros momentos de transição saiu-se bem quem tinha dinheiro em caixa para garantir o giro dos negócios.
O problema, segundo Haberfeld, é que a indústria pode não conseguir atender a um eventual acúmulo de pedidos de última hora para o Natal. A Semp Toshiba, fabricante de eletroeletrônicos, por exemplo, já cortou em mais de 40% a produção 20% em fins de julho e mais 20% agora. Para o presidente do Grupo Semp Toshiba, Afonso Antônio Hennel, há risco de escassez de produtos no fim do ano. Segundo ele, a empresa usa boa parte de componentes importados e resolveu reduzir a produção para diminuir a sua exposição às bruscas oscilações do dólar.
''O mercado não tem condições de absorver os aumentos de 30% que os fabricantes querem repassar para os preços'', diz o diretor administrativo-financeiro da Casas Bahia, Michael Klein. ''Quem deixou de comprar um TV por R$ 400 há alguns meses não vai querer pagar agora R$ 520 pelo mesmo produto.'' Maior rede de varejo de eletroeletrônicos do País, a Bahia manteve a programação de encomendas para o Natal feita há alguns meses. Em compensação, aceita negociar apenas o repasse da inflação para os preços.
Klein observa que o quadro de incertezas também está afastando o consumidor das lojas. ''Estamos percebendo que os clientes estão receosos em assumir dívidas porque não têm garantias de que vão se manter empregados com a transição de governos''.
Na Lojas Cem, as vendas deste mês não estão conseguindo sequer repetir o fraco desempenho de setembro de 2001, que tinha sido o pior período do ano para o comércio, por causa do racionamento energia elétrica e os atentados terroristas nos Estados Unidos. O supervisor-geral da rede, Valdemir Colleone, estima que as vendas deste mês devem fechar com queda de 8% na comparação com igual período do ano passado.
A Lojas Cem resolveu investir em estoques para driblar as pressões por aumento de preços neste período de transição. Atualmente, a empresa tem mercadorias para 60 dias, o dobro do normal. ''Foi uma questão de oportunidade, muita gente deve ter feito o mesmo. Agora, vamos esperar o resultado das eleições para fazer os pedidos do Natal'', diz Colleone.
A redução da produção nas fábricas já foi sentida pelos fornecedores de produtos intermediários. O presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), Merheg Cachum, diz que os pedidos tiveram uma forte redução nas últimas semanas. ''Vamos ter um fim de ano muito difícil. A expectativa do setor é de fechar 2002 com queda de 7% no faturamento na comparação com 2001.''
No caso da indústria química, que praticamente permeia todos os segmentos da economia, o cenário varia de produto para produto. No agronegócio e na indústria moveleira, por exemplo, as vendas de insumos continuam aquecidas. Já o fornecimento para os fabricantes de veículos automotores e para construção civil se retraiu.
''O cenário é muito incerto. Não temos uma idéia muito clara de como será o fim do ano'', diz o vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Guilherme Duque Estrada. No mês passado, as vendas do setor caíram 2,98% em relação a julho. ''Ninguém está muito otimista.''


