Sem gordura para queimar
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segunda-feira, 19 de junho de 2017
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 

Um caminhão descarregou toda a carga de batatas em um terreno vazio, em Guarapuava, no início de janeiro deste ano, quando a cotação estava em menos de R$ 17 por saca de 50kg. Na ocasião, produtores afirmavam que o preço nem mesmo pagaria o gasto com transporte, o que levou outros tantos a descartarem a colheita, da mesma forma. A rentabilidade do produto melhorou desde então, mas, conforme avança a segunda safra, os valores voltaram a ficar mais baixos do que o custo e a pressionar os ganhos dos agricultores paranaenses.
O tubérculo é o item com maior participação no Valor Bruto de Produção (VBP) da olericultura paranaense, com 31% do total em 2015 e R$ 1.179,30, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento (Seab). No entanto, os problemas climáticos enfrentados pelos agricultores na safra 2015/16 colocaram os preços em uma gangorra que tem dificultado a obtenção de lucro, mas sem o risco de se repetir a derrocada do início deste ano.
As chuvas prejudicaram a colheita, e a produtividade no ciclo anterior fez com que os preços disparassem acima de R$ 90 por saca em setembro, o que atraiu a atenção dos grandes produtores, principalmente. Por isso, a área plantada na primeira safra foi ampliada de 17,2 mil em 2015/16 para 19,7 mil hectares (ha) em 2016/17, ou 15% a mais. Da mesma forma, o volume disparou de 459 mil t para 562 mil t, ou 22% acima, no mesmo comparativo. "Foi o aumento da área e o fato de no início do ano termos festas, feriados e férias que diminuem o consumo", diz o coordenador estadual de olericultura do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Iniberto Hamerschmidt.
Cenário que levou aos preços mínimos do início deste ano. Desde então o valor médio da saca pago ao produtor aumentou mês a mês, até os R$ 52,91 de maio. Com o início da colheita da segunda safra, voltou ao patamar de R$ 35 no fechamento da última semana, em Curitiba. Valor que não cobre os mais de R$ 40 do custo de produção.
Chuvas
Engenheiro agrônomo do Deral, Carlos Alberto Salvador afirma que existe uma tendência de estabilização do preço em um patamar aceitável. "Tivemos um aumento da safra e tínhamos um excedente no início do ano, porque o clima da safra das águas foi super bom. Com as chuvas de agora, o preço começa a subir de novo", cita.
Salvador lembra que, historicamente, o valor cai no início do ano e volta a subir até maio, quando reduz um pouco e volta a subir até dezembro. Hamerschmidt considera que até é possível ao agricultor atrasar a colheita, desde que sem incidência de chuvas. "O preço deve ter caído porque se intensificou a colheita em Minas e São Paulo, que também mandam para cá", conta o coordenador do Emater.
Sobre a próxima safra, ambos dizem não ser possível prever se haverá redução da área plantada. "Trabalhamos com os pequenos produtores, que costumam manter a área, mas os grandes fazem a programação de acordo com a demanda e, às vezes, produzem demais", completa Hamerschmidt.
Importância
O Paraná é o segundo maior produtor de batatas do País e respondeu por quase 20% do total nacional no ano passado, com 775 mil toneladas, atrás apenas de Minas Gerais (1,259 milhão de t), de acordo com o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola de maio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O Estado deve ampliar a participação para 24% neste ano, com 926 mil das 3,966 milhões de t do País.

Programação de produção tem de melhorar
O sobe e desce nos preços dos alimentos, tanto para o produtor quanto para o consumidor, poderia diminuir se houvesse uma melhor programação da produção por parte do mercado. A opinião é do coordenador estadual de olericultura do Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Iniberto Hamerschmidt, que afirma que os pequenos agricultores sofrem mais diante da ampliação de grandes e médias propriedades de acordo com as cotações de preços, na batata, na cebola, no tomate e no alho.
Ele cita o antigo Programa de Produção Programada, que visava limitar a concentração de plantios de produtos para evitar excesso ou falta de oferta. "É complicado falar nisso hoje porque, se fizermos uma para a produção de batata no Paraná, sem que se faça em Minas e São Paulo, a batata de lá vem para cá", conta.
Mesmo que não seja possível regular o mercado, o coordenador do Emater lembra que outras medidas precisam ser melhor discutidas no setor. "Estamos importando cebola da Holanda, da Espanha e da Argentina, enquanto sobra no Nordeste do País, porque temos acordos comerciais para que possamos vender bananas para a Argentina", explica.
A produção do tubérculo não sofre com a chegada de produtos do exterior, mas ele prefere colocar no mesmo debate produtos relevantes para o consumidor, como alho, cebola, tomate e batata. "Estamos brigando por uma taxação maior dos importados, como ocorre com o alho", conta.


