O professor do curso de pós-graduação em energia da Universidade de São Paulo (USP), Ildo Sauer, autor de dois livros sobre os modelos de privatização do País, diz que o processo de privatização pelo qual o Brasil atravessa não é bom para a nação. Contrário ao processo de venda da Copel, o professor esteve em Curitiba semana passada a convite dos integrantes do Fórum Contra a Privatização da Copel. Sauer concedeu rápida entrevista por telefone à Folha, minutos antes de embarcar para São Paulo.

Folha O senhor é contra privatizações em geral ou contra determinados modelos e por quê?
SauerPara responder sua pergunta vou fazer um breve histórico sobre o surgimento do processo neoliberal, na década de 70, com a crise do petróleo, capitalismo, inflação. Foi neste período, que movidos por interesses econômicos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial, governos latino-americanos determinaram o fim do Estado como participador significativo das atividades econômicas. O discurso é o mesmo. Para aumentar a receita e sair da condição de subdesenvolvimento, buscar a estabilidade fiscal, monetária e melhorar a infra-estrutura dos serviços a alternativa é entregar o País para grupos privados. É neste contexto que surgiu a política neoliberal no Brasil. Pois bem, ninguém vai comprar as estatais se não obtiver lucro. E o lucro é proveniente do aumento abusivo das tarifas. Além disso, o dinheiro que as empresas privadas arrecadam, investem em seu País de origem.

Folha Qual a sua opinião sobre o modelo da privatização da Copel adotado pelo governo do Paraná, que pretende vender a estatal em três blocos (de geração, distribuição e transmissão)? O Paraná não sai perdendo com isso?
Sauer Só para se ter uma idéia, o preço da energia elétrica no mercado aumentou 100% desde 95. Com a privatização, e consequente criação do mercado competitivo, a tarifa de produção de energia vai mais que dobrar. Para a geração, a energia custa R$ 40,00 megawatts/hora e vai aumentar para R$ 100,00 o megawatts/hora no próximo ano. O impacto desse aumento vai pesar sobre a população, com o repasse do valor para as tarifas. Com isso, o povo paranaense vai ficar mais pobre. Com relação à Copel, o preço mínimo de venda de R$ 5 bilhões está subavaliado. Ela vale no mínimo R$ 13 bilhões. Vendendo a Copel em partes, o governo está desvalorizando-a como um todo. Essa insistência do governo do Estado em vender a Copel, ou é porque está com problemas de sanidade mental ou porque vai obter lucros por transações escusas. O discurso do governo que vai vender a empresa para produzir receita para o pagamento de contas da previdência é desculpa esfarrapada. A Copel já faz isso pois dá lucro ao Paraná. É um absurdo vender uma empresa que produz fluxo de caixa líquido.

Folha O senhor acha que este é um bom momento para se vender a estatal, já que estamos vivendo um período de crise energética, econômica e de instabilidade?
Sauer Com certeza o momento é péssimo. É um absurdo tentar forçar a venda da Copel com esta crise mundial de fluxo de capital. A crise financeira internacional e a indefinição de regras para venda de energia é um risco para os investidores. Por isso, ninguém se interessou em participar do leilão. Só um estúpido pode querer vender uma empresa do porte da Copel em momento tão desfavorável.

Folha Qual a sua avaliação sobre as parcerias da Copel de entrega de setores estratégicos, até mesmo da comercialização de energia?
Sauer A parceria com a Tradener foi um escândalo. Seria mais interessante fazer parcerias com empresas que produzem papel, cana-de-açúcar, porque essas empresas podem se tornar co-geradoras de eletricidade.

Folha Qual a sua avaliação sobre a privatização de companhias de outros estados?
Sauer A privatização Companhia de Energia de São Paulo foi responsável pela crise energética no Brasil. Se os atuais donos da Cesp tivessem investido no setor como o governo de São Paulo investiu antes da privatização, o cenário hoje seria diferente. Quanto à Copel, insisto em dizer que com sua venda, o Paraná empobrecerá. É fundamental que continue com o Estado pois é sua riqueza. O aumento brutal das tarifas pós-privatização vai provocar a retração econômica do Estado. As indústrias deixarão de se instalar aqui, por consequência vai diminuir a geração de empregos.

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