O Brasil vai fechar o ano de 2003 com juros básicos da economia fixados em 16,5%. A decisão pelo corte de um ponto percentual sem viés da taxa Selic foi tomada, ontem, na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de forma unânime. Com a decisão, os juros básicos passam a ser os menores desde abril de 2001 e a redução acumula queda de 9 pontos no ano. Ainda assim, a opção pelo corte de um ponto foi considerada tímida e conservadora pelo economista Laércio Rodrigues de Oliveira, além de ter sido interpretada como ''crença fundamentalista'' pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Rodrigo da Rocha Loures.
Os mercados financeiro e produtivo esperavam por corte de até dois pontos percentuais na Selic, após a divulgação pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de índice zero para crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2003. Na opinião de analistas de mercado, um corte mais ousado ajudaria o País a fechar o ano com perspectivas mais otimistas para 2004.
Para o economista Laércio Rodrigues de Oliveira, do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), até agora todas as decisões referentes à Selic foram tímidas. ''Com fortes sinais de processo inflacionário controlado e grandes expectativas por retomada do crescimento, era de se esperar um corte mais profundo'', argumenta Oliveira. Para o economista, cortes rasos estimulariam o capital financeiro, enquanto a realidade do Brasil aponta para necessidade de estímulo ao capital produtivo, a chamada economia real. ''São eles que precisam de juros mais baixos'', diz.
Oliveira acredita que são muito poucos os empresários que possuem capital para investimentos e isso impediria o crescimento. Juros anuais entre 10% e 12% seriam o ideal para o final deste ano, segundo o economista. ''Mas acho que o Planalto está inseguro quanto a captação de recursos com impostos e está mantendo os juros altos para facilitar a tomada de dinheiro'', afirma.
''Há uma crença fundamentalista insistente na política monetária do Banco Central. O dogmatismo exacerbado impede que se vislumbre o crescimento por outra ótica, que não a do controle da inflação pelas elevadas taxas de juros'', expôs o presidente da Fiep, Rodrigo da Rocha Loures, em nota divulgada ontem logo após a decisão do Copom. Além de entender como ''tímido'' o corte de um ponto percentual da Selic, Loures não acredita em retomada da economia com tal medida.
O presidente da Fiep reforça a tese de que juros elevados distorcem o câmbio prejudicando as exportações, além de deter investimentos e provocar sobrecarga no orçamento público. ''O juro alto causa impacto desfavorável no crédito, afeta o consumo e corrói a renda das famílias. É uma trava para o desenvolvimento'', disse.
''Se o PIB crescer 3,5% em 2004, não teremos uma política de empregos sustentável. Precisamos crescer o dobro para diminuir o desemprego'', avalia Loures. ''Isso não vai acontecer se o governo mantiver este raciocínio equivocado de segurar a inflação pelos juros. E se isso não for feito, corremos o risco de avançar para a terceira década sem desenvolvimento sustentado'', conclui.

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