São Paulo - O subdiretor-geral do Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e representante regional da entidade para a América Latina e Caribe, Gustavo Gordillo de Anda, disse ontem em São Paulo que, pelos critérios da organização, cerca de 10% da população do Brasil são subnutridos, o que o situa entre os países onde o grau de fome é tido como ''intermediário''. Ele evitou comentar declarações do presidente Fernando Henrique Cardoso de que não há fome no País.
''A entidade trabalha com três faixas de classificação para medir a fome no mundo, segundo o total de calorias consumido por dia'', diz Gordillo. Subnutrido é quem come menos de 2.200 calorias. A primeira faixa inclui países onde até 5% da população está nessa categoria. A segunda faixa, na qual se encaixa o Brasil e boa parte das nações da América Latina, como Chile, Costa Rica e México, tem índices de subnutrição de 5% a 15%. A faixa seguinte chega a 25% da população subnutrida. Casos mais graves, com índices acima de 25%, agregam-se à terceira faixa, mas têm tratamento especial. No mundo, 84 países - a maioria na Ásia e África - têm dificuldades para produzir e importar alimentos. Na América Latina, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Haiti, Equador e Bolívia se enquadram na categoria.
''O Brasil poderá acabar com a subnutrição. É um problema de vontade política. O que se fixou na conferência mundial da fome é reduzir a fome no mundo de 840 milhões de pessoas à metade até 2015, mas não estamos cumprindo a meta'', disse. Questionado sobre as declarações do presidente, Gordillo foi evasivo: ''Esse debate é dos brasileiros. Trabalhamos muito bem com o governo FHC ao longo de oito anos e vamos trabalhar bem com o governo Lula.''
Em entrevista à BBC Brasil, o presidente recomendou a Lula que cuide do controle da inflação ''antes de retomar programas sociais assistencialistas''. ''Há casos raros de fome no Brasil. Há subnutrição'', disse o presidente, para quem a distribuição de alimentos é ''um passo atrás''.
O coordenador do programa Fome Zero e integrante da equipe técnica de transição, José Graziano da Silva, recusou-se a comentar as críticas. ''Não vou fazer nenhuma consideração sobre o assunto, temos uma outra agenda. Vamos detalhar o Fome Zero e estamos empenhados em recolher as melhores informações possíveis'', disse Graziano, referindo-se à missão conjunta da FAO, Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento que virá ao Brasil em dezembro.

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