Secretário do Tesouro aconselha Brasil a ''não ser complacente''
Clóvis Rossi
Agência Folha
O secretário norte-americano do Tesouro, Lawrence Summers, reconheceu ontem que a confiança no Brasil, que há um ano estava em falta, foi em grande parte restabelecida, mas advertiu: Ainda não é tempo para complacência.
A avaliação de Summers, feita em entrevista coletiva durante o encontro
anual 2000 do Fórum Econômico Mundial, é uma brutal diferença em relação ao que ele próprio pensava havia um ano.
Em jantar durante o encontro-1999, Summers, então subsecretário do Tesouro (o titular era Robert Rubin, que abandonou o cargo), chegou a qualificar a moeda brasileira de real.com, para simbolizar que ela havia se transformado em uma moeda virtual, devorada pela desvalorização do final de janeiro passado.
O funcionário norte-americano atribuiu o que considerou substancial
melhoria na situação brasileira à redução do déficit fiscal e a um manejo hábil da política monetária.
O elogio de Summers, ainda que matizado pela cobrança de não-complacência, foi o mais recente de uma coleção que os jornalistas brasileiros e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, ouviram durante o encontro do Fórum.
Um deles era óbvio. Veio de George Soros, o megainvestidor (ou megaespeculador), ex-patrão de Armínio no Fundo Quantum: Meu amigo Armínio Fraga está fazendo um bom trabalho. Nem por isso, no entanto, o presidente do BC revelou a complacência de antemão condenada por Summers. Questionado sobre as dúvidas que ainda persistiam sobre o Brasil e lhe foram transmitidas em Davos, Armínio respondeu: Numa escala de 1 a 10, as dúvidas estavam em 10 no início do ano passado, caíram para 7 no meio do ano e, agora, estão em 5. A diferença é que, em 1999, as dúvidas estavam centradas na transformação ou não do real em uma moeda virtual. Agora, são muito mais variadas, constatou Armínio.
Dizem respeito às políticas monetária e fiscal, à continuidade das reformas estruturais, ao sistema financeiro e, até, ao Mercosul, que, não por acaso, entrou em crise juntamente com a crise das economias brasileira e argentina. Se, na economia, Armínio não mostrou complacência, o fez em área em que
não é um especialista. Depois de relatar que boa parte das discussões informais entre os líderes presentes a Davos girou em torno da revolução da informação, da Internet e das novas tecnologias, escorregou: Saí convencido de que nosso modelo competitivo nessa área é muito bom. Exagero quando se sabe que relatório do Ministério da Educação, igualmente divulgado em Davos, mostra que apenas 200 mil alunos foram conectados com a Internet, quando o número total de alunos nas escolas públicas é de 32 milhões, de acordo com o mesmo relatório.
O governo canadense, sempre em Davos, anunciou que todas as escolas - e, portanto, todos os alunos - já estão conectados, a última delas recentemente, mesmo tendo apenas três alunos. Armínio admitiu o óbvio, ou seja, que nem todos os alunos brasileiros estão plugados, o que é dizer pouco, mas disse acreditar que parte do problema, o setor privado competitivo vai resolver . Resta, sempre segundo o presidente do BC, ver até que ponto as áreas carentes necessitam de um empurrão.
O segundo ponto importante das discussões em Davos ressaltado por Armínio foi o fracasso da Conferência Ministerial da Organização Mundial do
Comércio em Seattle, há dois meses.
O fracasso de Seattle foi algo que nós (o governo brasileiro) gostaríamos de reverter , disse Armínio.
Mas escapou pela tangente quando perguntado se a reversão significaria
incluir na agenda de negociações comerciais temas como direitos dos trabalhadores e meio-ambiente, exigência repetida sábado pelo presidente Bill Clinton.
Temos grande interesse em discutir essas questões, mas é preciso saber como entram na agenda , escapou Armínio, que voltou ontem para o Brasil. O presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Enrique Iglesias, disse que o Brasil deve ser o principal responsável por um crescimento de 4% nas economias latino-americanas neste ano. Iglesias também destacou a capacidade de superação da economia brasileira.





