Até onde a vista possa alcançar, observa-se um quadro de desespero e desolação na agricultura da região de Centenário do Sul (91 km ao norte de Londrina). Em 43 dias choveu apenas 25 milímetros, quando o esperado era 270 milímetros. A situação da região de Santa Mariana (16 km a leste de Cornélio Procópio) é pior ainda, 25 municípios amargam uma quebra na safra de R$ 80 milhões porque choveu apenas 2 milímetros nesse período (leia nesta página). O prejuízo está levando prefeitos dessas localidades a decretarem Estado de Emergência nos próximos dias. Mesmo que a chuva venha, as lavouras em diversas regiões do Paraná já contabilizam R$ 1,5 bilhão de perdas.
''Está horrível'', declara Celso Delani, secretário municipal da Agricultura e Meio Ambiente de Centernário do Sul. Dos 35 mil hectares de lavoura que cercam o município, o prejuízo foi de 80% para o milho, de 30% para o café, de 32% para a produção leiteira e de 60% para soja. Delani avalia que grande parte do orçamento municipal de R$ 12 milhões para o próximo ano estará seriamente comprometido, já que a baixa produção na lavoura redundará num menor recolhimento de tributos. Para se ter uma idéia, o total de R$ 5,65 milhões já é o prejuízo monetário da lavoura de soja.
A iniciativa em decretar o Estado de Emergência visa propor ao governo federal um debate sobre os prejuízos dos agricultores. Na região de Centenário, 30% da agricultura é financiada pelo Banco do Brasil. Outros 70%, são agricultores que perderam o direito de crédito por dívidas de secas anteriores e mesmo assim plantaram comprando ''fiado'' de cooperativas da região. ''Queremos que o governo ajude os agricultores, antes que os credores tomem as terras e tudo mais'', declara Delani.
Em Centenário do Sul, por exemplo, 43 famílias do Assentamento Sol Nascente compraram insumos, plantas e sementes para pagar depois. O agricultor Domingos Niles conta que sua dívida desde 2001, quando plantou 11,5 mil pés de café, está na casa dos R$ 20 mil. Ele emprestou dinheiro do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), não tendo como saldar a dívida, diante das secas de 2004, 2006 e agora, justamente quando deveria ser o auge da produção de sua lavoura cafeeira. ''Tem a prestação da terra que começo a pagar ano que vem e não tenho dinheiro nem para a venda (compras no mercado)'', fala.
Com o rosto marcado pelas agruruas dos últimos anos, Niles acrescenta que já pensa em arrancar todos os pés de café, totalmente secos. ''Estou desesperado, não sei mais o que faço'', diz, pensativo. Antes que o agricultor tome esta atitude, o engenheiro agrônomo da Emater, Sergio de Souza Lopes, está providenciando laudos nas lavouras comprometidas pela seca da região. Segundo ele, o objetivo é fazer laudos não só em lavouras protegidas pelo seguro do Proagro, mas também para agricultores que financiaram do próprio bolso sua produção. Lopes conta que a idéia é encaminhar esses laudos para a Defesa Civil do Estado, onde será encaminhado o pedido de Estado de Emergência.
Para grandes produtores da região de Centenário as perdas chegam a 50%. ''Perdi metade de tudo que plantei. Perdi soja, trigo e milho'', conta Warner Negrão, produtor de uma área de 50 alqueires. Ele diz que espera as chuvas até março do próximo ano, quanto até lá colherá o que puder para abater o prejuízo. Já o produtor Valentim Vlademir Cripa deduz que colherá por hectare 70 sacas de soja, quando o esperado eram 140 sacas. ''Moço, não existe terra fértil sem água'', diz, ironizando a própria situação.

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