Os comerciantes de algumas cidades pequenas do norte do Paraná, que dependem diretamente do desempenho da agricultura, já sentem os primeiros prejuízos com a estiagem dos últimos dois meses. Com a seca, a produtividade do campo está retraída, algumas culturas já estão com o plantio atrasado e outras, no período de floração, estão comprometidas. O reflexo desse cenário da produção agrícola é quase imediato no comércio desses municípios: as vendas começaram a cair e a inadimplência aumentar.
''Em todos os períodos de seca é assim, ficamos preocupados com a queda nas vendas. Mas este ano, a estiagem está castigando ainda mais'', queixou-se o comerciante Eugênio Serpeloni, proprietário de um mercado em São Martinho, distrito de Rolândia (25 a oeste de Londrina). Segundo ele, os trabalhadores rurais estão perdendo dia de serviço - porque há um atraso no período de plantio de algumas culturas - e em consequência só estão comprando o essencial. ''Os produtos supérfluos ficam fora da lista. E o nosso lucro e as boas vendas também'', disse.
Na cidade vizinha de Jaguapitã, os comerciantes estão em alerta. ''O problema já bateu na porta: as vendas caíram uns 15%'', lamentou o comerciante Jorge Luiz Campaner, proprietário de um supermercado. Segundo ele, fora os prejuízos diretos da estiagem, há o efeito psicológico. ''Os produtores rurais ficam com medo de investir e não ter retorno''. O maior problema na região, enfatizou o comerciante, tem sido a falta de pastagem. Quem trabalha com gado tem sofrido com a queda na produção do leite e perda de peso dos animais.
Além de provocar a queda no movimento do comércio, a estiagem gera outro problema: o aumento da inadimplência. ''Estamos apreensivos porque além das vendas terem diminuído neste mês, alguns clientes estão com as contas atrasadas'', comentou Kátia Mendonça, proprietária de uma padaria em Guaraci. Kátia contou que, na propriedade da família - por exemplo - a estiagem já atrasou o plantio do milho e tem prejudicado a floração do café. ''O problema é que com isso a produção cai e a contratação de mão-de-obra também diminui'', lastimou.
O efeito da seca só não é maior na cidade, segundo a comerciante, porque muitos trabalhadores rurais têm a colheita da cana-de-açúcar para ganhar algum dinheiro. ''O pessoal que trabalha com a cana tem ajudado a movimentar o comércio, mas a situação com a seca está preocupante'', afirmou a comerciante Karina Natália da Silva, de Centenário do Sul. Na loja dela, o movimento já caiu 30% desde o último mês.
Situação semelhante vivem os comerciantes de Santo Inácio. ''Com essa seca ninguém quer plantar, pois tem medo de perder a produção, então ninguém emprega. E o pessoal que trabalha na colheita de cana, apesar de ser a maioria, não é suficiente para manter o comércio. Estou sonhando com a chuva'', relatou Maria de Lourdes dos Santos, gerente de uma loja de roupas. De acordo com ela, a estiagem tem atingido os pequenos produtores de gado, que sofrem com a falta de pastagem, e os agricultores que querem começar a plantar. ''Estamos preocupados. Só este mês a venda diminuiu uns 30%'', enfatizou.
O gerente de uma loja de móveis do município, Marco Antônio Dadona, também frisou que os produtores de leite estão sendo bastante afetados com a seca, por conta da falta de pasto. ''Além de diminuir a produção, tem até animal morrendo'', disse, confirmando que o que tem sustentado o comércio é o dinheiro que vem da colheita da cana. ''Mesmo assim, as vendas estão iguais ao clima: secas'', ironizou.
Em Bela Vista do Paraíso, a situação é ainda pior, pois o comércio depende diretamente da movimentação da agricultura e do setor público, e ambos estão com problemas. Segundo a comerciante Andréia Turate, além da agricultura que está parada, os servidores municipais estão com os salários atrasados. ''As vendas este mês caíram e a inadimplência aumentou porque muita gente não tem como pagar pois não recebeu''.

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