Seab superdimensionou o problema no rebanho
Há 86 dias o Paraná vive uma crise. Primeiramente, com a suspeita de febre aftosa; depois, houve a confirmação do foco. Neste período, não foram constatados sinais clínicos, nenhum animal ficou doente. É praticamente inquestionável, entre os técnicos, que houve erro por parte da Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento (Seab) ao afirmar que as chances de o rebanho estar contaminado ''eram de 99%''.
''Ao longo do processo, vimos que as lesões eram leves e transitórias e regrediram espontaneamente. Olhando para trás e analisando todo o processo com serenidade, afirmamos que foi dada importância demais às lesões, houve um superdimensionamento do problema'', afirma o veterinário Raimundo Tostes, doutor em Patologia Animal. Para Tostes, a ''crise'' instalada no Paraná deixa algumas lições: uma situação estritamente técnica transformada em discussão política, aliadas às poucas ações e ações equivocadas por parte da Seab para lidar com o problema.
Ele disse que os resultados laboratoriais não isolaram o vírus e que os exames sorológicos são ''duvidosos'' porque não são capazes de dizer se os animais que apresentaram reação positiva têm presença do vírus ou apresentam reação à vacina. ''Estamos vivendo uma situação surreal. O apego a suspeita fez com que virasse fato. É como se estivéssemos no tribunal do Santo Ofício em que o réu é imediatamente condenado, sem direito a defesa. Os exames foram feitos e o ministério (Mapa) estava decidido de que havia a doença, o resultado não importava'', comenta Tostes.
Fato consumado - Segundo a Federação da Agricultura do Paraná (Faep), as entidades que compõem o Conselho Estadual de Agropecuária (Conesa) votaram a favor do sacrifício porque a aftosa ''já era fato consumado''. ''O Conesa é um órgão consultivo, que o governo convocou sem nenhuma necessidade. Para a OIE (Organização Internacional de Sa© úde Animal) o Paraná tem aftosa porque os bois vieram do Mato Grosso do Sul (onde foram confirmados vários focos) e há exames com sorologia positiva. E se quisermos voltar a exportar temos que sacrificar esse gado'', salienta Carlos Augusto Albuquerque, assessor do presidente do Faep.
Na sua avaliação, o sacrifício é a melhor solução para evitar um prejuízo maior para todas as cadeias do frango, de suínos e do leite, ''que já estão sendo bastante afetados com o foco da doença'', além da própria pecuária de corte. Ele lembra que o Paraná teve 11 dias (desde quando foi comunicado o foco do MS) para investigar a aftosa no Estado. ''Tivemos tempo suficiente para olharmos os bois, colher material para exames. Diante deste panorama há duas hipóteses: ou os técnicos tinham certeza de que havia aftosa ou são muito incompetentes. Quem inventou que tinha aftosa foi o Paraná, o Ministério (Mapa) não é culpado. A Seab se escondeu atrás do Conesa para tomar uma decisão e ainda se absteve de votar'', salienta o assessor. (F.M.)





