Deborah Bresser
Da Agência Estado
O pacote prometia. Laçarotes, papel fluorescente, cartão repleto de felicitações carinhosas. Tudo indicava que vinha um presente daqueles, mas a ansiedade inicial logo dá lugar a um sorrisinho amarelo, um obrigado entre dentes e uma feição de desânimo difícil de disfarçar. Micos na noite de Natal parecem ser inevitáveis. Em todas as famílias, a cena se repete e todo mundo já passou pela constrangedora situação de ganhar algo que detestou, nem que por uma única vez. Neste domingo de ressaca natalina, deve estar cheio de gente por aí ainda olhando inconformada para os bibelôs de cerâmica de cores e design inacreditavelmente cafonas, roupas impraticáveis e lembrancinhas que deveriam ter sido esquecidas.
‘‘Até hoje, o pijama que ganhei de um parente há uns quatro anos ainda está dentro de um armário na casa de minha mãe, onde a ceia de Natal é feita’’, revela o bancário Daniel Medeiros, que sempre passa as festas com a família no interior do Estado. Agora a mãe o obrigou a levar o mimo embora, antes que a prima descubra o presente jogado no fundo da gaveta. Passado tanto tempo, não há nem como trocar.
‘‘Para não ficar com uma bomba ocupando espaço em casa há duas alternativas: ou troca ou lixo’’, diz o promoter Antônio Salomão. Ele não se aperta quando alguém que deu um mico vem questionar, tipo ‘‘nunca te vi com aquela blusa de oncinha que dei no ano passado’’. ‘‘Não perco o rebolado e invento, digo que esqueci no hotel na última viagem’’, diverte-se.
‘‘Quem dá o presente não pode cobrar o uso’’, ensina Cláudia Matarazzo, autora dos livros Etiqueta sem Frescura, Case e Arrase, Gafe não é Pecado e Net.com.classe. Caso isso ocorra, quem recebeu tem todo direito de mentir, inventar alguma história ou tentar mudar de assunto para se livrar da saia-justa.
Quando se está diante de um presente desses inacreditáveis, o melhor, segundo Cláudia, é manter a classe, agradecer sem euforia e trocar na surdina. ‘‘Acho um absurdo quem dá presente de bazar. É bom para quem compra, é baratinho, mas quem ganha fica sem a chance de trocar. Só vale se a pessoa conhecer muito bem o presenteado e a possibilidade de erro for mínima’’, opina a escritora e jornalista. Ganhar presente errado não é nenhum problema na vida de uma pessoa. Essa é a opinião da designer Cristina Klodz, que não hesita em trocar as peças de que não gosta. ‘‘Quanto mais íntima for a pessoa, melhor, dá para conversar, dizer que não é o que eu queria. Se não der para trocar, simplesmente passo para frente, sem problemas.’’ Os piores presentes, muitas vezes, vem de dentro de casa. ‘‘Conheço uma pessoa que já ganhou esponja de banho da sogra’’, diz Cláudia, indignada. A verdade que é em toda família há sempre um parente PHD em dar micos.
‘‘Dos amigos é mais raro receber algo que não combine com a gente’’, acredita Elena Montanarini, consultora de moda masculina da Daslu. Mesmo quanda ganha algo que a desagrade, Elena não perde a pose. ‘‘Recebo com gentileza, afinal o ato é o que importa. Só fico com pena daquela pessoa que não teve sensibilidade de saber o que teria a minha cara’’, diz. Para ela, os presentes errados não devem ser repassados, a menos que seja para alguma instituição de caridade. Em alguns casos, o presente é tão horrendo que falta coragem até para doar. ‘‘Ganhei uma agenda que era ridícula, tinha uma capa de lata dourada, um horror. Joguei fora’’, assume o promoter Cesar Semensato, que quando não gosta do que ganha procura ser discreto e sair de fininho.

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