Se não fiscalizar, aftosa pode voltar
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sábado, 13 de março de 2010
Wilhan Santin<BR>Reportagem Local 
Desde que o Paraná oficializou ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) o pedido de se tornar área livre da febre aftosa sem vacinação, no início do mês, a polêmica foi lançada. As opiniões de especialistas se dividem. Pode ser temerário dar adeus à vacina, mas também pode ser uma decisão certeira. Mas, afinal, é ou não um bom negócio para o Estado passar para um novo status sanitário?
Do ponto de vista comercial, a resposta é positiva. Porém, sanitariamente, é uma decisão, no mínimo, ousada. Na América do Sul, o vírus ainda circula em três países: Equador, Bolívia e Venezuela. As regiões Norte e Nordeste do Brasil também são consideradas ''zonas infectadas''. O problema é tamanho que a meta do Grupo Interamericano para a Erradicação da Febre Aftosa (Giefa), criado em 2004 com a meta de eliminar a doença - que já não circula nas Américas Central e do Norte - nos países sul-americanos, não foi atingida.
De acordo com o veterinário Victor Saraiva, coordenador da Unidade de Enfermidades Vesiculares da Centro Pan-americano de Febre Aftosa (Panaftosa), órgão vinculado à Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), a situação ainda é considerada perigosa, mesmo para o Paraná, que está longe dos países mais afetados. ''É preciso muito cuidado, muita atenção, para mudar o status sanitário'', enfatiza. Contudo, Saraiva entende que o Estado, assim como o Rio Grande do Sul, tem a sua vigilância em um estágio avançado e, por isso, ''todo o direito de reivindicar o status de livre sem vacinação''.
''A aftosa não acontece por acaso. O Paraná tem que estar muito seguro da sua situação intranacional e internacional e de seu sistema de defesa veterinária. Para isso, é preciso uma série de provas e estudos. Parar de vacinar é a condição primária, pois tirando a proteção, toda a fragilidade do sistema será exposta. A partir daí, tem que fiscalizar muito seriamente, não como situação de controle, mas de prevenção e erradicação. Para isso vai haver um custo e é preciso um compromisso muito sério dos setores público e privado. Não é um passeio, é um desafio, é algo difícil, mas possível'', destaca Saraiva.
Para dar uma ideia do nível de comprometimento necessário caso o pedido seja aprovado, o veterinário lembra que a aftosa não é a única doença vesicular. Existem outras enfermidades como a estomatite, que apresenta sintomas semelhantes. ''Seja um 'estrepe' que entrou na língua do boi ou que o animal esteja mancando por que pisou numa pedra, tudo vai ter que ser investigado imediatamente e não dez horas depois. É a única forma de garantir que a vigilância estará funcionando'', complementa.
Ex-ministro da Agricultura e pecuarista, o empresário José Eduardo de Andrade Vieira compartilha com o técnico da Panaftosa a opinião de que fiscalizar será a palavra-chave para que uma área livre de vacinação tenha sucesso. ''Garanta que há a fiscalização, que é feita (a fiscalização), que animais de área de risco não entram no Estado e estarei de pleno acordo que parar de vacinar será extremamente vantajoso'', enfatiza.
Quando respondia pelo Ministério da Agricultura, em 1995, Andrade Vieira iniciou as negociações com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentos (FAO), em duas reuniões em Genebra (Suíça), a autorização para que o Brasil tivesse o reconhecimento de áreas livres da doença dentro do território. ''Fazer a fiscalização por áreas é muito mais viável. Portanto, é preciso que o Paraná analise muito bem a situação de seus vizinhos e sua vigilância de fronteira'', finaliza.


