Santo de casa (Joelmir Beting)
Joelmir Beting
Consumidores em liberdade são absolutamente implacáveis. Eles não têm coração nem remorso. A pátria deles é o bolso.
Richard Branson, empresário inglês (Grupo Virgin)
Santo de casa
Santo de casa também faz milagre. Poderia ser esse o mote do Pró-Brasil, rótulo do Movimento de Valorização do Produto Brasileiro (na passarela de opções do consumidor verde-amarelo). Ainda nas dores do parto da captação de fundos privados, o Pró-Brasil é uma iniciativa de entidades setoriais da indústria. Não tem dedo nem verba do governo nessa empreitada.
E que empreitada! Tenta se reverter a insopitável predileção do consumidor brasileiro pelo produto similar estrangeiro. Coordenador do movimento, Synésio Batista da Costa diz que essa reação do consumidor já era esperada: Era natural que, ao cabo de tantas décadas de mercado protegido, com milhares de itens com importação até mesmo proibida por decreto, o consumidor brasileiro sucumbisse aos apelos do produto importado, independentemente de marca ou de origem. Mas essa lua-de-mel deve acabar. E vamos lutar para isso, com as armas da persuasão e do esclarecimento.
Para Boris Tabacof, outro animador do Pró-Brasil, a campanha de promoção do produto nacional dentro do mercado brasileiro - ainda não se cogita de semelhante investida no mercado externo - responde menos ao interesse tópico de um setor ou de uma empresa e mais a uma exigência macroeconômica de repercussão social: redução do déficit da balança comercial no interior do déficit externo em transações correntes. Esse ralo contábil explica o cabresto cambial e o arrocho monetário que hoje inflacionam os juros e atrofiam o consumo, a produção e o emprego.
A abertura comercial acertou na intenção, mas castigou no método, lembra Jacks Rabinovich, também fundador do Pró-Brasil: não houve aviso prévio, não houve preparação adequada, não houve sequer a cobrança de reciprocidades da poderosa parceria externa. Balanço da aventura, segundo a CNI: de 1993 a 1997, para uma expansão acumulada do PIB de apenas 17%, as exportações cresceram 38% e as importações explodiram 144%. Efeito líquido: 1,6 milhão de empregos perdidos.
Synésio Batista da Costa é presidente da Abrinq e é da Abiótica, entidades nacionais dos fabricantes de brinquedos e produtos óticos. Ele revela que, em certos mercados, para cada US$ 30 mil de importação de bens de consumo final, um trabalhador perde o emprego no mercado formal. Tanto assim que o Pró-Brasil vai buscar o apoio das centrais sindicais agora em junho.
A promoção do produto nacional deve começar por uma campanha de propaganda multimídia que está sendo criada pelo publicitário Alex Periscinoto, entusiasta do Pró-Brasil. Ele lembra que campanhas do gênero existem em dezenas de países. Com a globalização, tanto mais.Infantaria
- Oito entidades nacionais da indústria já se alistaram nessa guerra: brinquedos, embalagens, papel e celulose, têxteis, gráfica, ótica, cosmética e eletroeletrônica. Devem contar, logo mais, com plásticos, cartonagem, ferramentas, trefilação e puericultura.
Motivação
- Nem só de status simbol vive a farra dos importados. A opção envolve prestígio de marca, qualidade, preço, serviço e financiamento. Sem contar a apelação do dumping e do contrabando.
Camelódromo
- Nos bens de consumo, o camelódromo é o braço armado do contrabando. Por ironia do destino, o camelódromo é operado pelos desempregados de ontem, provocando o desemprego de amanhã.
Uma aposta
- Se a redescoberta do produto nacional resultar em aumento de 3% nas vendas dos setores já engajados na campanha, serão (re)criados, ainda este ano, 110 mil empregos diretos. O cálculo é do Pró-Brasil. Fax: (011) 211-0226.





