Sanções dos EUA podem inviabilizar atividades econômicas
Inclusão do PCC e CV na lista de organizações terroristas pode bloquear sistema financeiro e dificultar importações e exportações
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de maio de 2026
Inclusão do PCC e CV na lista de organizações terroristas pode bloquear sistema financeiro e dificultar importações e exportações

Os impactos da decisão do governo dos Estados Unidos de classificar como grupos terroristas as organizações criminosas brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) ainda estão se desenhando, mas especialistas avaliam que a medida terá consequências internas nos campos econômico, político, financeiro e jurídico. Na economia, um dos prováveis desdobramentos é o prejuízo às exportações, seja nas transações feitas diretamente com os EUA ou por meio de instituições financeiras norte-americanas.
Para um estado como o Paraná, com boa parte da economia sustentada pelas atividades do agronegócio, as previsões são preocupantes porque este é um setor que opera intensamente com exportações e importações e pode ter as atividades inviabilizadas. A SRP (Sociedade Rural do Paraná) apoia o combate ao crime organizado “com rigor, inteligência e cooperação internacional”, mas pede que esse enfrentamento seja feito com cuidado para evitar implicações ao setor produtivo, como o agronegócio brasileiro. “O agro depende de crédito, segurança jurídica, rastreabilidade e acesso a mercados internacionais. Qualquer medida que crie risco de restrições financeiras, bloqueios comerciais ou suspeição generalizada sobre cadeias produtivas pode comprometer a competitividade de quem trabalha dentro da lei e sustenta parte importante da economia nacional”, disse o presidente da SRP, Marcelo Janene El-Kadre. A medida anunciada pelos EUA começa a valer no próximo dia 5 de junho.
Especialista em comércio exterior e CEO da W.Brazil Trader, Ricardo Kono, aponta como primeira consequência mais grave serão bancos e outras instituições financeiras intensificarem as investigações acerca das suas operações. “Se os EUA deduzirem ou levantarem alguma suspeita, fica em alerta vermelho e pode trazer consequência para as instituições e para quem trabalha com elas. Se os EUA identificarem irregularidades em um banco comercial que indiquem relação com organismos criminosos, o banco pode sofrer bloqueio imediato. “O sistema SWIFT (Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais) pode ser acionado para determinados bancos ou entidades brasileiras.”
Outro grande problema a ser enfrentado na economia interna são os bancos internacionais cortarem relações com bancos brasileiros, tornando o sistema financeiro mais frágil.
“O PCC e o CV estão mergulhando na economia formal do Brasil. Bancos, fintechs, construção civil, postos de gasolina, fundos imobiliários, há várias empresas do comércio formal que podem ser prejudicadas por terem conexão com o crime organizado. Vai ter que ter muito compliance para provar que você não é culpado”, comentou Kono.
“Empresas que importam ou exportam direto para países que não concordam com a decisão dos EUA, como a China, serão menos impactadas. Mas quando há intermediação do Bank of America, J.P. Morgan ou outro banco americano, pode ter dificuldade ou o dinheiro pode ficar parado no meio do caminho”, ressaltou Kono, que ainda apontou como consequência extra efeitos no risco-Brasil, com reflexos no turismo e na atração de investimentos, por exemplo.
Antes de avaliar as prováveis consequências para o Brasil, o promotor de Justiça do Tribunal de Juri do Ministério Público do Paraná e mestre em direito com pesquisa na área de investigação criminal André Pasternak Glitz destacou que a decisão dos EUA é decorrente da incapacidade do Estado brasileiro de enfrentar o problema. “E nós não fizemos isso por falta de ferramentas jurídicas, mas sim por incapacidade operacional”, declarou. “Há uma preocupação com a soberania do país, com a segurança pública, mas a gente vive já um estado de guerra aqui, em alguns lugares do país. O PCC e o CV dominam territórios em que o Estado perdeu completamente o controle.”
Glitz salientou a falta de estruturação do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), organismo nacional de inteligência financeira, que teria um papel de enorme relevância nesse trabalho de combate às facções. “Para enfrentar o PCC e o CV você precisa de inteligência financeira, um sistema de compliance muito forte porque essas organizações criminosas se expandem e se organizam através de operações financeiras, do poderio econômico, que depois se torna um poderio político. A gente, infelizmente, não tem tratado isso com a seriedade devida.”
Agora, com a interferência dos EUA com data marcada para começar, os efeitos econômicos são preocupantes. “Hoje, é difícil imaginar uma atividade financeira de média ou grande porte que não passe pelo sistema financeiro americano”, disse Glitz. Ainda que seja uma simples operação financeira com uma instituição que atue em outro país, se essa operação estiver relacionada ao PCC ou ao CV e a instituição estiver sob a jurisdição dos Estados Unidos, a classificação das facções brasileiras como terroristas já permitiria uma intervenção norte-americana, destacou o especialista.
“E é aí que começam a surgir os problemas. Qual vai ser o critério, quem vai decidir se essas operações financeiras têm ou não alguma vinculação com essas organizações criminosas? São os Estados Unidos e isso pode passar por um trabalho de investigação formal criminal até por uma agência de inteligência como a CIA”, ressaltou o promotor.
Do ponto de vista econômico, apontou Glitz, o panorama é de intranquilidade em razão das duas facções, especialmente o PCC, terem se tornado empresas a serviço do crime e que operam em escala internacional. “Há uma mescla de capital lícito e ilícito muito grande nas atividades dessas organizações criminosas. E isso agora tem autorização dos EUA, a partir dessa classificação, para estrangular financeiramente essas organizações criminosas, mas isso certamente pode ter um impacto muito grande nas atividades lícitas também que eventualmente tenham alguma relação, ainda que distante, com as operações dessas organizações”, explicou.
Para se precaver de ter as atividades bloqueadas ou amenizar os efeitos da medida, evitando prejuízos maiores e minimizando os riscos, Glitz orienta as empresas a investirem em um sistema de compliance e iniciarem o quanto antes a revisão de todas as suas operações, verificando parceiros de negócios e por onde passam suas movimentações financeiras. “Do ponto de vista jurídico, isso blinda a pessoa jurídica e a pessoa física também.”
Decisão dos EUA tem amparo jurídico
A inclusão do PCC e CV na lista de organizações terroristas estrangeiras foi anunciada pelo governo de Donald Trump na última quinta-feira (28), dois dias após a visita à Casa Branca do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República. Logo depois do encontro, o parlamentar disse à imprensa que havia pedido ao presidente dos EUA que incluísse as duas facções criminosas na lista de grupos terroristas.
No ano passado, o irmão do senador, o então deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), admitiu publicamente ter sido o articulador da aplicação de um tarifaço de 50% sobre uma série de produtos brasileiros importados pelos EUA. As taxações acabaram sendo derrubadas pela Suprema Corte norte-americana, que considerou a medida ilegal, mas até a decisão da Justiça, houve grandes prejuízos às exportações nacionais. A redução das vendas do Brasil aos Estados Unidos entre agosto e novembro de 2025 foi de US$ 1,5 bilhão em produtos.
Para quem aposta que a decisão anunciada pelos EUA nesta semana, assim como aconteceu com o tarifaço, não vai longe, Glitz alertou que dessa vez é diferente porque a medida tem respaldo jurídico. “Diferentemente do tarifaço, isso não vai acontecer agora. Politicamente, o Trump pode voltar atrás? Pode. Mas juridicamente, a Suprema Corte já disse que é constitucional e pode alcançar atividades que, aparentemente, são legais.”


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.


